Cesárea: Já conversou sobre ela com sua doula hoje?

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Créditos na imagem

Para a mulher que deseja o parto natural a possibilidade de saber que ser submetida a uma cesárea é real e causa frio na barriga.

A gente sabe, ela existe. O percentual está lá para mostrar, existem relatos de outras mulheres com assistidas por equipes humanizadas com baixo índice de cesáreas que passaram por uma.

E ai? Você vai ignorar? Vai focar no percentual maior? Vai colocar isso na mente a qualquer custo?

E se realmente uma cesárea for necessária? Você está estruturada emocionalmente para lidar com isso, aceitar, confiar e agradecer e entregar e passar para a fase de maternagem sem maiores questões?

É uma situação difícil, indigesta. Quem procura um parto normal quer parir, quer sentir a passagem do bebê pelo canal vaginal, quer trazer seu filho ao mundo sem precisar ser submetida a uma cirurgia desse porte e o foco fica tão intenso nesse processo de parto, de busca de profissionais que a família, a mulher considera esse um assunto menor. Faz parte de um pequeno percentual que por acaso VOCÊ acaba fazendo parte.

E aí? Como lidar com esse luto?

Não tem receitinha mágica. Vai doer na alma até que consigamos processar e estruturar toda a questão, o caminho que levou até chegar nesse procedimento, a forma que foi conduzido e recebido, por isso é importante sim conversar com sua doula que será crucial ao te apoiar informacionalmente durante a gestação, durante e após no puerpério.

Uma gestante que estou doulando em nosso primeiro encontro perguntou se eu a acompanharia no caso de uma cesárea intraparto. Outra gestante que conversei ontem disse ter relatos de doulas que mudam a fisionomia e literalmente se afastam da gestante quando a cesárea é indicada durante o parto. Uma outra pessoa próxima a mim passou por uma situação similar e se sentiu abandonada também.

Chamo a atenção não com um viés crítico para a conduta de cada uma, não sou juíza para julgar ninguém, apenas convido profissionais e gestantes para estarem despertos e conscientes sobre a real possibilidade de uma cesárea intraparto se fazer necessária em todo este processo.

Isso precisa ser conversado de forma clara, não só com a frase clichê: “Cesárea eletiva salva vidas”. Pergunte a sua doula como ela sente isso dentro dela. Se ela estará junto de você neste momento…Talvez até ela esteja despreparada para enfrentar essa questão de maneira tranquila.

Com as gestantes que acompanho, no processo informacional trago essa questão com transparência.

Converso olhando nos olhos e deixo claro que parto natural não é troféu. É consequência. Não estamos numa competição para ver quem é a ”super mulher parideira” ou quem tem o  “melhor” parto estilo “renascimento do parto”.

Cada mulher vai ter o parto que precisa, temos que ter estar empoderadas até para olhar de frente para a possibilidade de uma cesárea com indicação real que não desqualifica todo o processo que a mulher enfrentou na gestação e no parto.

Vitória é durante muitos meses nadar contra a maré. Procurar profissionais realmente humanizados, frequentar grupos, enfrentar oposição de família e amigos, enfrentar um trabalho de parto por horas.

Essas conquistas não podem ser minimizadas ou esquecidas diante de um desfecho inesperado. Todo o ganho, todo o aprendizado é para a mulher e a família.

Cabe a puérpera que passou por uma cesárea com indicações reais olhar para trás e saber que seu melhor foi feito, foi dado.

Que seu filho veio ao mundo na hora certa, que você foi tratada com respeito e que não foi enganada. E que a sua história deveria ser assim, dessa forma e com esse desfecho.

A mulher pode e deve olhar para sua trajetória com orgulho, com olhos brilhantes com força na voz e dizer com toda certeza:

-Eu consegui! Eu sou mulher perfeita, meu corpo é divino! Estou com meu filho junto de mim.

A mulher que enfrentou uma cesárea intraparto não precisa da pena de ninguém. Não precisa de palavras “ela não conseguiu”. Não precisa se calar. Ela conseguiu, lutou não somente por horas, mas por meses e vai enfrentar essa questão por um tempo indeterminado dentre de si.

Ela precisa apenas de acolhimento, apoio, carinho e que nossos olhos transmitam a certeza de sua força e capacidade que nada no mundo, nem mesmo uma cesárea bem indicada podem anular.

E seguimos entregando, confiando e agradecendo.

Sororidade e empatia, sejam bem vindas!

 

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Por que a maternidade ideal não funciona para você?

 

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Se eu pudesse dar um conselho as mães de primeira viagem eu diria:

-Maternidade não é receitinha de bolo, questione, se adapte, use seu senso crítico e trilhe o caminho que for melhor para vocês.

Meu “modelo” de maternidade ideal tem sido posto a prova diariamente.

Por que para mim, se gera culpa e sobrecarga não está funcionando. Quando era gestante li milhares de coisas, vi vídeos lindos, chorei e prometi para mim mesma que seria a mãe maravilha.

Muita coisa, o grosso deu certo. Meu filho come super bem, fizemos a introdução alimentar pelo método BLW e foi a melhor decisão que tomei até hoje. Deu um trabalhão, deu frio na barriga morrer engasgado, de não ganhar peso, mas com informação e apoio de outras mães que adotaram este método deu pra chegar lá.

Meu filho não tem acesso a eletrônicos. Não assiste televisão, não sabe quem é Galinha Pintadinha…Hábitos. Não ligamos a televisão em casa porque ouvimos música na maior parte do tempo e ele não sente falta do que não teve.

Não sabe o que é tablet, não brinca com celular. Legal, conseguimos!

Mas o que eu queria que era que ele fosse para a escola com 04 anos não será possível. Não consigo oferecer todas as refeições com excelência para ele todos os dias. Tem jantar que faço lanchinhos, tem dia que comemos fora em locais saudáveis, mas muitas vezes essa quantidade passa de uma vez por semana.

Meu fluxo menstrual é intenso, uso DIU o que piora tudo. Nesses dias me recolho e é lei…E nesse período não consigo espremer laranjas em todas as refeições, cozinhar beterraba e picar cenouras em sucos naturais. Gostaria, mas não dá, é ultrapassar meus limites físicos.

E ai como faz? Sou uma mãe imprestável que não serve para sequer fazer um suco saudável pro filho?

A verdade é que a demanda com os filhos aumenta a cada dia. Entendam por demanda:

  • Crianças começarem a andar. Você vai passar o dia atrás dela, com a atenção no máximo lutando para salvar o mundo. Vai deitar e sequer vai se lembrar de seu nome, tamanho o esgotamento mental e físico.
  • Crianças querendo brincar. Com você. Em você. Vai ter puxão de cabelo, mãozinha dentro do olho, mouse roubado. Vai ter gavetas esvaziadas, potes de ração virados, papel picado, livro arremessado.
  • Passar roupa? Hahaha! Preciso falar que é impossível passar roupa com uma criança que se agarra em suas pernas, balança a mesa e puxa o fio do ferro?
  • Cozinhar? Só se for com uma cadeirinha ao lado. Se não for assim, a criança VAI abrir todas as gavetas e esvaziar. E vai se interessar justamente por aquela tesoura e aquela faca perdida.
  • Ftuteiras? Uma ótima atividade sensorial, vai tudo pro chão. Esses dias encontrei uma batata no meio dos brinquedos do meu filho.

E some a isso choro, atenção, colo e para quem amamenta como eu, sessões longas de tetê.

Entenderam a questão da demanda? Deu para visualizar? É difícil e o incrível é que muitas pessoas, mesmo familiares próximos, mesmo marido, só entendem quando vivenciam.

E a gente não sai dando chinelada, prendendo criança não. A gente abaixa, explica, entende o momento dela de explorar e conhecer o mundo.

Falando sobre culpa, vejo que a materna cai sempre sobre os cuidados que nós MÃES dispensamos aos nossos filhos e nunca no cuidado que entregamos para nós.

Passamos meses sem fazer nada por nós. Meses achando que fazer unha e cabelo é o máximo do cuidado.

A gente vai perdendo a consciência corporal…Esquecemos de sentir nosso corpo sem ser para servir e alimentar. Esses dias viajamos e foi tão bom tomar banho sem interrupção, sem saber que quando eu saísse teria um bilhão de coisas para fazer.

Fechei os olhos e senti minha pele, meus cabelos, deixei a água quentinha cair preguiçosa nas minhas costas. Na piscina me senti solta, meus músculos livres. O sol aquecendo a pele, o corpo esticado, a alma leve.

Na correria a gente sente falta do toque, da mão no rosto, do abraço demorado. Precisamos de aconchego, precisamos de acolhida e precisamos de tudo isso antes de chegarmos no nosso limite de esgotamento mental e físico.

E cadê a culpa por pularmos essa “fase” do jogo? Cadê a culpa por não termos tempo para desenvolvermos outras atividades para nós mesmas?

Artesanato para mim era um hobby maravilhoso. Gosto de atividades manuais, fiz aula de pintura, de flauta transversal…Adorava restaurar peças. Minha casa tem muito das minhas mãos e cada caixote que fiz, cada janelão que transformei, ganhei um tantão de paz.

Hoje não dá pra fazer, não dá pra pregar um botão!

E as receitinhas de maternidade ideal só focam no filho, no desenvolvimento do filho e não na saúde psíquica, espiritual e física da mãe que também é gente!

Então minhas amigas, minha maternidade quem faz sou eu. Se eu estiver esgotada ao final do dia pode ter certeza que meu filho vai comer um lanchinho feito com muito amor e vai dormir em paz, e eu também.

As demandas domésticas não param e quem não põe a mão na massa, quem teve empregada a vida inteira, quem come fora, quem pede comida todo dia, quem tem diarista, quem tem alguém para passar roupa não vai entender nem de perto o sacrifício que é manter uma casa funcionando.

E nem falo de vidros brilhantes e paredes impecáveis, falo do grosso. Roupa lavada e comida na mesa. É muito pesado.

 “Ah…Vida de mãe é assim mesmo!”

Não é assim mesmo! Vida de mãe não é virar sombra do filho, não é virar uma máquina executora de tarefas, não é não poder ficar doente. Vida de mãe é vida de gente, com necessidades e desejos.

O meu convite a todas as mulheres é que elas usem sua autonomia de vida, seu senso crítico e olhem para si com mais carinho e cuidado e por favor, não se culpem tanto.

O mundo ideal existe apenas na nossa mente, o que fazemos na vida de verdade é atravessar a corda bamba com dois pratos torcendo para nenhum quebrar.

Que façamos essa travessia difícil de maneira mais leve e livre de culpa e cobranças.

P.S: A maternidade ideal não vai funcionar para você, simplesmente por que ela não existe no mundo real.

Leite nas tetas e amor no coração

 

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Vanessa Meyrelles e Álvaro. 01 ano e 06m de amamentação LD.

Pensei muito antes de postar essa foto.

Não pela “exposição”. Um corpo que amamenta, acolhe e cuida merece todo o respeito do mundo. Pensei nas mulheres que não conseguiram amamentar e que por algum motivo se sentissem desconfortáveis com esse registro, mas com ele vão minhas palavras de acolhimento, não julgamento e partilha de experiências.

Antes de engravidar não pensava em amamentação porque simplesmente não era um assunto que fizesse parte do meu universo.

Me preparei muito para o parto e nada para a amamentação. Não li nenhum livro, não frequentei grupos, simplesmente achava que era instintivo. Minha mãe amamentou por 04 meses exclusivamente os dois filhos. Achava normal.

Dizia que foi sofrido e que a mamadeira com fórmula foi algo natural e que trouxe um alívio pra ela. Das dores, das fissuras e no segundo filho da rotina pesada de cuidar da casa, de mim com seis anos sozinha.

Na fala dela eu vi que precisaria de apoio. Mesmo que fosse fácil, amamentar sem apoio eu não conseguiria, afinal, cuidar da casa, da rotina e amamentar devia ser impossível.

Quando meu filho nasceu fui presenteada com um bebê voraz, que nasceu sabendo mamar. Ele mamava com boca de peixinho!

Nos primeiros três dias eu vi o que me esperava. Ele não desgrudava do peito, eu ainda tinha uma sensibilidade que hoje não tenho e quando meu leite desceu, a tão famosa apojadura, eu que não me preparei achei que fosse morrer.

Eu tremia, tinha calafrios e perdi totalmente o chão. Meu marido se assustou, ligou para a parteira que nos orientou e tudo se acertou.

Enfim, via meu peito cheio de leite. Enorme, próximo da explosão e li que se ele empedrasse eu teria problemas. Uma tal de mastite, que doia pacas.

Também descobri que tirar o excesso com a bombinha estimularia mais a produção, eu teria que lidar com o excesso até o corpo se acertar.

Foi bem difícil, mas passei por este período sem fissura, sem mastite e sem dor. Sentia prazer ao ver que meu corpo funcionava e que eu era capaz de alimentar meu filho.

Mas eu tinha que me adaptar a demanda. Peito toda hora. Dia e noite. Tive que rever roupas, soutiens até me encontrar. Tops sem costura molinhos foram minha salvação.

Os meses foram passando e a minha licença chegando próximo do fim. Nada do meu filho desgrudar do peito! Puxa, eu amava amamentar, nutri-lo era uma questão forte pra mim. Por convicção não demos chupeta ou qualquer outro bico artificial. Lidei com choros intermináveis, colo, colo e peito em livre demanda. Como me separar do meu filho?

Comecei a ler. Entrei em grupos, estava desesperada. Precisava garantir que meu filho recebesse meu leite mesmo longe de mim.

Vi que eu deveria ordenhar e armazenar o leite. Encontrar os potes foi um sofrimento, ou eram grandes, ou com o bocal pequeno. Vi que ninguém se importava com a mulher que decidia armazenar o leite para seu filho.

Comprei uma bomba para extração, que foi horrível. Vi meu leite se misturou com sangue, a dor era excruciante. Tudo o que eu não senti, tudo o que não me feriu, aquele aparelho me machucava.

Chorei demais. Minha única opção era a ordenha manual.

E assim foi. Eu passei a ordenhar meu leite manualmente, mas pra isso eu acordava bem cedo antes do meu filho e aproveitava os seis cheios para ordenhar. Meus dedos doíam. Eu queria dormir um pouco mais mas o leite dele era mais importante.

Saiam pinguinhos de nada. 10ml para mim eram uma vitória. Com persistência comecei a ordenhar 75 ml rapidinho. Quando estava calma e feliz saia mais leite então eu ordenhava ao lado do meu filho e meu marido.

Eu ficava melada. Eu cheirava leite. Minhas roupas tinham esse cheiro doce e eu me sentia orgulhosa de ter vencido essa batalha.

Enchi o freezer de potinhos em 15 dias ordenhando na mão. Meu leite era lindo, ficava cremoso, branquinho.

O processo de armazenar era sofrido. Tinha que esterilizar os potes, deixar secando. Não esqueço a sensação do meu rosto queimando com o vapor que saia da panela. Etiquetas. Caneta especial. Data.

Cada gotinha era sagrada.

Voltei para o trabalho e passei o dia com meus seios enchendo. Minha mãe me ligava e eu podia ouvir meu filho chorar de fome enquanto eu estava com os seios arrebentando de leite.

No horário do meu café avisei outras funcionárias e disse o quanto era importante a não interrupção da ordenha, eu iria me trancar na cozinha, estaria sem blusa e pedi que por favor, por nada no mundo me interrompessem.

Entrei naquela cozinha pequena, com o ar condicionado ligado e numa cadeirinha fechei os olhos e pensei no meu filho. Chorei.

Abaixei minha blusa, coloquei as músicas do parto e da bolsa tirei uma roupinha usada dele. Queria sentir seu cheiro. Ali em meio a tralhas e barulhos eu ia fazer minha ordenha.

Comecei. As mãos já estavam meladas, o leite jorrava, o seio doía. Estava engrenando quando alguém bate na porta. Eu PEDI que por favor não me interrompessem e a alguém precisava de sua bolsa.

Naquele momento vi que amamentar era importante apenas para mim e para meu filho. Enxuguei as lágrimas, me vesti, me lavei, guardei meu potinho e encerrei minha ordenha ali.

Voltei para casa a 160km por hora. Em 08 minutos eu estava lá. Pelo caminho me livrei do salto agulha e corri o máximo que pude.

Cheguei em casa e meu filho dormia e antes de vê-lo, encontrei um body seu no cantinho do sofá. Cheirava leite, meu leite derramado.

Ele chorou sem parar. Minha mãe disse que em determinado momento viu que era choro de saudade. Não aceitou o leite no copinho e nem na colherzinha. Ele tinha 05 meses.

Eu tentei amamentá-lo mas ele não quis. Pela primeira vez me rejeitava. Eu desabei e chorei como uma criança. Solucei, me rasguei, me quebrei.

Decidi pedir a conta no outro dia, para mim, nada era mais importante que continuar esse processo. Foram 10 anos de CLT que eu abri mão.

Me senti aliviada. Eu podia alimentar meu filho! Decidi que seria doula, outras mulheres mereciam e podiam ter um parto respeitoso e uma amamentação possível.

Me capacitei doula e acompanhando outras mulheres vi o quão difícil é amamentar. São muitas questões que não cabem julgamentos, mas sim auxílio e apoio quando existe essa abertura.

Meu filho está com 01 ano e 06 meses. Esse registro é de hoje. Com a vida corrida não tenho tempo para mim. Fotografo tantas mulheres amamentando e eu mesma não tenho quase nenhum registro desse momento no tempo presente.

Então decidi que de mansinho, hoje seria nosso dia de celebrar e entre trancos e barrancos me vi neste registro com muito orgulho do meu corpo capaz, do meu filho e de tudo o que passei.

Meu filho e a amamentação mudaram minha vida para sempre. Hoje sou doula e fotógrafa e amo o que faço. Meu trabalho é desenvolvido em muitos momentos com meu filho nos braços mamando, como acontece agora que estou escrevendo meu relato.

Se eu não insistisse na amamentação não seria o que sou. Meu filho e eu estaríamos vivos, mas a alegria que sinto hoje com tantos desdobramentos não seriam parte de mim.

Pela amamentação eu pedi a conta do emprego, devolvi meu imóvel para a construtora. Meu sonho de amamentar era maior que o sonho da casa que eu poderia lutar mais a frente.

Ainda amamento em livre demanda, inclusive a noite. É difícil, é cansativo mas ainda sim persisto e vou amamenta-lo até quando ele quiser.

Por isso a foto, porque eu me acho merecedora depois de tudo o que enfrentamos. Eu quero sambar na cara da Nestlé. Eu quero que rufem os tambores porque meu filho foi nutrido por mim e eu vi nos meus braços que não existe leite fraco.

Que todos se conscientizem que não existe amamentação fácil. No meu caso a parte física do processo foi ok, mas tive de enfrentar muitas dificuldades. Volta ao trabalho sofrida, tive que abri mão de emprego, imóvel, claro, por minha opção, mas tive. Vi muita cara feia que tem aumentado conforme meu filho cresce. Falas condenatórias (seu filho come? é criado, bezerrão e ainda mama?) ouço de vez em sempre.

Essa semana é minha, é nossa, é de todas as mulheres. É de quem amamentou, é de quem não amamentou. Nossa união é feita pelo útero.

Resistam, resistam mulheres.

Sangue nas veias, leite nas tetas, amor no coração!

 

E quando as avós não apoiam? Rede de apoio para quem não tem apoio.

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A maioria dos textos sobre rede de apoio a puérpera bate na tecla em como as avós podem estar presentes neste momento e auxiliarem a mulher neste período.

Mas e quem não pode contar com elas? Como fica?

Essa questão é um grande tabu, infelizmente. Faz com que mulheres que vieram de famílias disfuncionais se sintam perdidas. Ó céus, sem avó não faço nada? Não tenho filhos? Fico jogada a própria sorte?

Nem sempre a presença da matriarca na casa da família é viável, independente da questão. Ela pode ter idade avançada, ser doente ou mesmo desinteressada e pouco cooperativa, afinal ela é uma pessoa REAL e não uma construção do arquétipo de anciã acolhedora, cuidadora e curativa.

E se não existirem avós vivas? Como faz? As mulheres ficam a esmo? E aquelas que moram em outro país?

O fato é que por mais que tentemos ser valentes precisaremos de auxílio no puerpério e pouco importa se alguém na família pariu 10 filhos e se virou sozinha. Este momento é de especial fragilidade física e emocional.

De assalto a vida para. Você estará cansada, com um bebê plugado, numa outra esfera de vida. Coloque junto nessa receita a privação de sono e acrescente um filho mais velho e animais para cuidar.

Ou seja: Com ou sem avó você VAI precisar de auxílio.

Minha dica é: Pense com carinho e faça um fundo reserva na gestação mesmo para poder delegar tarefas para outra pessoa.

Quando a gente fala de avós, tias, primas que ajudam nesse processo me sinto num vilarejo rural no século passado. É triste, mas a verdade é que poucas pessoas tem vontade de ajudar e outras poucas tem disponibilidade de tempo para isso. Hoje em dia todos trabalham e tem seus afazeres não podemos contar exclusivamente com a pena ou a boa vontade de alguém neste período.

O que toda família vai precisar neste momento é que as necessidades BÁSICAS sejam supridas, ou seja:

1º Alimentação fresca e de qualidade

2º Animais alimentados e bem cuidados

3º Roupa limpa e organizada

4º Para a puérpera: Sono e descanso sempre que possível

A licença dos homens tem apenas 05 dias, ou seja, não dá para nada. Primeiros dias são extenuantes:  Registrar, fazer exames, e tudo isso com as necessidades básicas gritando, então foquem no básico. Esqueçam casa arrumada, azulejos brilhantes, vidros impecáveis e por favor, não gastem energia com isso tentando manter em ordem o que não vai ficar em ordem. Aceitem apenas.

Se o marido não for um cozinheiro legal, contratem uma pessoa para cozinhar em casa e deixar a comida congelada por uns dias.  Eu prefiro assim, sai um valor infinitamente menor, você escolhe os ingredientes e o preparo é feito em sua própria casa. Se alimentar bem é lei.

Uma panelinha de arroz qualquer um aprende a fazer. Tendo arroz fresquinho, uma salada esperta e um suco gostoso (congele a polpa das frutas) está tudo certo.

Para as roupas espalhe cestos pela casa. Cada membro da família com um cesto. Um de roupa suja e outro de roupa limpa. Fica fácil para qualquer um colocar na máquina e depois de limpas colocarem no cesto certo. E depois se ninguém passar não vai ter histeria para achar a outra meia perdida.

Se a família tiver condições financeiras, uma pessoa que faça a limpeza da casa ajudaria absurdamente a manter a ordem. Que seja a cada 15 dias, já é um alento.

E amigas…Dependendo do estado emocional e das questões puerperais, sim as verdadeiras costumam ser bem vindas. Na minha gestação a visita delas foi muito importante para mim, não me senti só. Elas olhavam nos meus olhos e perguntavam como EU estava.

É a pergunta chave, é o que nos faz sentir gente.

Essas dicas são as básicas. Claro que elas são variáveis, não são receitinha de bolo. Vão mudar conforme a rotina de trabalho do homem, quantidade de filhos, questões financeiras mas é bom outras mulheres saberem que podem se organizar antecipadamente ao invés de se desesperarem ou se verem abandonadas nesse período, ou pior: Se sujeitando a um contato apenas por necessidade.

Rede de apoio não é só avó. Você pode construir sua rede de apoio a qualquer momento e ter um puerpério um pouco menos tempestuoso.

Ai você pode falar: Falar é fácil, né? Também não é fácil, mas partilho com vocês minha experiência de mãe e mulher que trabalha e que não conta com apoio, exceto por uma amiga que acolhe pontualmente meu filho em caso de doulagens durante a semana e outros compromissos que ele não possa estar presente.

Aqui em casa fazemos tudo por nós mesmo…Dá certo, dá trabalho, mas dá um orgulho absurdo olhar para trás e ver o quanto nós somos capazes.

Entendam que rede de apoio não vem pronta. Não se restringe a avós e parentes próximos. Você pode construir sua rede de apoio, sua família direta pode auxiliar neste processo e sim, é possível delegar questões básicas para outras profissionais.

O que não pode é deixar esse assunto de lado, não se planejar e esperar acontecer que alguém de coração puro bata na sua porta as 16:00 com um bolo quentinho, um limpa limpo spray na mão para limpar seu banheiro e um saco de roupas limpas e passadas.

Isso não vai acontecer!

Pensem, ponderem e remanejem gastos que seriam destinados a enxoval, chá-de-bebê e foquem neste período desafiador que é o puerpério.

Sobre a escolha de sua doula e a desmistificação.

 

Ai você vira e fala :

-Achei minha doula! É ela! Meu amuletinho, mulher forte, leoa, que vai chegar comigo no hospital lacrando geral. Vão olhar pra ela e vão falar:

-Nossa, ela está com a fulana! Geral, bora guardar material de episiotomia! Sem kristeller que ela está com a super doula! Ó, fala pro neo não aspirar e não usar colírio! Meu Deus, já ia esquecendo! Clampear o cordão só depois de parar de pulsar, belê!

E sem bate papo paralelo, a super doula chegou!

Então, só que não. Nada disso vai acontecer, porque sua doula não vai arrancar a saia, o rebozo da bolsa, rasgar a bata no meio e mostrar sua roupa de mulher maravilha, porque ela não é sua super heroína.

Ela é sua doula e sendo assim seu papel não é de enfrentamento. Não é fazer as coisas que lhe cabem como pais. Não é discutir com a equipe e dizer o que podem ou não fazer com seu corpo.

Esse é o papel de vocês pais. Mesmo com o acompanhamento de uma doula que lhe dará apoio informacional, emocional e no manejo do trabalho de parto, certas coisas são vocês que terão de fazer e se posicionar.

Doula seja ela quem for, é sombra dentro de um hospital. Não tem nome e nem sobrenome, é mais uma falha no sistema se intrometendo onde não deve, ao ver deles.

Para você que escolheu sua doula por estas questões subjetivas, meus sentimentos. Ela não vai comprar sua briga, ela não vai operar milagres, ela não vai dizer o que a equipe deve ou não fazer. Este não é seu papel, que fique claro.

Escolha sua doula por afinidade e comprometimento. Essa afinidade vai fazer você se sentir a vontade com ela para expor seus medos mais íntimos. Vai fazer com que você se alegre com sua presença antes e a imagine durante horas e horas com você no trabalho de parto…Nua, urrando, virando do avesso.

O comprometimento dela vai fazer com que você tenha luz em sua caminhada. Com ela você vai aprender sobre a fisiologia do corpo durante um trabalho de parto e suas fases, vai saber mais sobre consciência corporal, exercícios antes e durante, dicas de livros, importância da rede de apoio no puerpério, construção de plano de parto entre outras muitas coisas que as doulas desenvolvem com suas gestantes. Com a minha aprendi a trocar fraldas, a usar o sling.

Com tanto aprendizado, são vocês que terão a palavras final, doulas no processo de parto numa instituição não fala pelo casal, faz a bolha energética e quem vai exigir que seus desejos sejam cumpridos é o casal.

Doula não é amuleto, patuá, bibelô ou acessório do poder.

Entendem porque ao escolher a doula, determinados fatores tão relevantes aqui fora, dentro de uma instituição, em meio a uma equipe se perdem completamente? Sabem por que?

O parto é seu e de mais ninguém. É algo sobre seu corpo, sua consciência e sua autonomia sobre ele.

.E sim, não tem jeito. Você vai ter de sair de sua zona de conforto. Experiência de parto não é comprada, se constrói. Tijolinho por tijolinho, com suas próprias mãos.

 

Parir no plantão. É possível?

Semana passada conversei com uma gestante que me disse ter ido a um hospital aqui de Campinas para fazer um exame.

O que ela encontrou lá?

Mulheres desorientadas em trabalho de parto. Urrando de dor, sendo solenemente ignoradas pela equipe do plantão. Uma profissional foi bem fria e disse a uma funcionária:

-Elas estão em trabalho de parto! Não podemos fazer NADA!

Com essa afirmativa tão pesada quanto uma bigorna, a funcionária se limitou a ignorar as gestantes e se afastar.

Ela foi a única e ter uma visão pouco favorável de um plantão? Será que era um ponto isolado?

Dias atrás num parque aqui do bairro, uma mãe conversa comigo e ao descobrir que sou doula disse o quanto somos necessárias.

Ela queria muito um parto normal. Foi para o mesmo hospital que a outra gestante esteve para exames e também foi ignorada. No meio de sua dor, tentava acalmar e ajudar outras mulheres porque ali ninguém se importava. Ela não tinha doula, não frequentou grupos, sentiu falta de apoio. Tinha apenas força de vontade.

Esses relatos tem o objetivo de frear o romantismo sobre parir no plantão. Nos levar a reflexão sobre pensamentos   insinuantes de que equipes de humanização são desnecessárias e mercenárias e que sim, mulheres vão parir.

É muito tranquilo dizer que foi fácil matar o tigre depois que ele está no chão. Quando eu pari vi que meu corpo funcionava maravilhosamente e que em pouco mais de 05 horas de trabalho de parto ativo eu estava com meu filho nos braços.

Porém mesmo tendo a consciência fisiológica do parir JAMAIS deixei de creditar cada membro da equipe. O trabalho delas não foi pontual, percorri um longo caminho até decidir que teria um parto domiciliar.

Em muitas vezes eu fechava os olhos e me lembrava das palavras de minha doula. Fomos em sua casa num dia chuvoso confraternizar e assistir o vídeo do seu parto e ela me disse:

-Vanessa, 90% das mulheres vão parir.

Ali com o plano B em mãos eu decidi onde iria focar minhas energias, para onde direcionaria meu olhar. E decidi confiar no meu corpo e agradecer todo o apoio emocional e informacional que eu tive durante a gestação toda.

Sem elas seria possível, mas talvez eu não tivesse uma experiência de parto maravilhosa como eu tive. Talvez eu tivesse uma episiotomia generosa ao verem que meu filho era grande.

Por isso eu volto a repetir: Não romantizem partos de plantão. Sejam realistas consigo e suas expectativas e ao conversarem com mulheres que conseguiram parir no plantão observem que elas tiveram um TP fluído, que chegaram com dilatação avançada, que estavam com maridos despertos, conscientes e informados e muitas contavam com uma doula de acompanhante.

E mesmo com todas essas questões nem sempre o resultado é o esperado, porque plantão é loteria. Tudo depende da sua evolução do trabalho de parto, da equipe entre outros.

Todas as mulheres que conheço e que pariram no plantão tem similaridades, pontos em suas histórias que se cruzam:

-Passaram a maior parte do trabalho de parto em casa.

-Tiveram acompanhamento de doula ou enfermeira obstétrica.

-Se informaram durante a gestação.

-Frequentaram grupos nem que de forma pontual.

-Mantinham uma rede de apoio informal com outras gestantes que tinham o mesmo objetivo.

-Tinham plano de parto e sabiam responder todas as questões sobre os procedimentos.

-Estavam convictas sobre sua vontade de parir.

Muitas vezes a questão sobre o parto em plantão é feita de maneira pincelada…

-Pari no plantão!

A afirmação vira um recorte de uma situação trabalhada por muitas mulheres antes mesmo de começarem a gestação.

Olho aberto mulheres! Infelizmente temos um sistema que não acredita na fisiologia do parto e privilegia outras questões a maioria de maneira corporativista.

Parto no plantão é possível, mas infelizmente não basta só querer. É preciso ter preparação e sorte

Desapego e construção da experiência de parto.

Crédito imagens: Monet Nicole Birthing Stories

Vi um vídeo lindo de uma parteira ontem. Amo-a.

Seu olhar, seu tom de voz, sua abordagem e visão sobre o parto me encantam. Fiquei muito emocionada quando a encontrei pessoalmente, ela não sabe, mas sua frase “As mulheres sabem parir, gostam de parir” foi algo que mexeu demais comigo e me motivou em muitos momentos da minha gestação, inclusive no meu parto.

Li um comentário onde uma pessoa afirmava que muitas mulheres saíam de suas cidades, viajavam para outro estado para ter filhos com ela.

Eu entendo. Compreendo. A figura dela no trabalho de parto é realmente forte, sua competência é inquestionável. Sua magia é única, mas mulheres…

Confiem em sua força interior, SEMPRE!

No meu trabalho de preparação mental eu trabalhei muito o desapego e meu resgate ancestral de força individual. Planejei o parto, escolhi por receber meu filho em casa.

Fiz meu altar de força, onde tinha objetos de poder, presente das amigas que recebi no Chá de Bênçãos escolhi o cantinho que a piscina ficaria. Sabia o que queria comer, quem estaria no meu parto. Escolhi a equipe por competência e afinidade energética, porém depositei TODA a força do parir em mim, independente dos elementos que estivessem presentes no meu parto. Antes de estar com meus filho nos braços já sentia o vento do descontrole passar em minha vida.

Meu marido trabalhava em outra cidade. E se não desse tempo dele chegar? E se ele não acompanhasse meu trabalho de parto? E se a filha da minha doula ficasse doente?

Eu não iria parir? Claro que iria! O parto, essa caminhada era minha e do meu filho. Seu corpo e o meu. Internamente eu decidi que nada que acontecesse iria nos atrapalhar, nada iria quebrar nossa conexão e bloquear a minha entrega.

E imprevistos aconteceram? Sim, claro. Eu me abalei? Não, absolutamente! Não romantizei esse momento, não depositei meu ponto de apoio externamente, então nada do que ocorreu atrapalhou, bloqueou ou manchou minha experiência de parto que EU construí.

Querem saber as coisas totalmente inesperadas que aconteceram?

Comecei a sentir contrações mais fortes, daquelas que perder a noção de tempo e espaço. Contava com minha mãe para passar esse primeiro momento. Liguei na casa dela e prontamente ela veio, mas não pode ficar. Por que?

Um vazamento de água no seu banheiro que estava invadindo a fiação do chuveiro acontecia NAQUELE momento. Totalmente inesperado. Ela teve que voltar para sua casa para acompanhar a manutenção. E eu fiquei só. Firme como uma árvore.

Fiquei em meu apartamento sozinha por opção. Poderia chamar as doulas, mas meu desejo era passar esse momento sozinha e assim se deu. Fiquei no meu quarto, recolhida, com meus gatinhos até meu marido chegar as 19:30 porque eu não tive como ligar para ele sair mais cedo do trabalho e vir acompanhar o trabalho de parto.

E tudo bem também!

A piscina foi enchida por ele quase em sua totalidade com água fria. Com um balde ele aproveitava o que saia do chuveiro grande, mas com isso não deu margem para a água estar aquecida quando eu quisesse entrar. Meu pai veio em casa e sugeriu que ele deixasse no modo frio para economia de energia. Ele acatou.

Meu filho não nasceria na manhã seguinte. Meu trabalho de parto foi rápido, eu sentia meu corpo abrir e precisa muito entrar na piscina, estava no meu limiar de dor suportável. Quando entrei a água estava fria e a piscina cheia. Foi preciso em trabalho grande das queridas doulas para esvaziar a piscina e completar com água quente.

Foram muitas panelas de água fervente no fogão e eu na piscina, me esquivando da água quente que caia e fugindo dos baldes que retiravam a água fria da piscina.

Eu esperava que fosse assim? Não.

Isso cortou minha conexão? Não.

Foi aprendizado para todos e para mim. Minha ligação interna era tão grande, que o mundo lá fora era apenas detalhe. Não havia romantizações em minha mente. Não havia não parir por causa da louça na pia. Eu ia parir, aconteça o que for. E lutaria com todas as minhas forças para ser em casa, meu único objetivo era começar e terminar em casa.

Em dado momento a piscina furou, o terceiro nível. Uma tragédia para a Vanessa fora de trabalho de parto, imaginem um piso de madeira (tacos) sendo banhado por toda aquela água! Furou por conta da resistência que tentava manter a água aquecida, mas que não rolou, ela encostou na borda quando eu entrei.

E ai? Vou chorar? Meu filho não iria nascer na piscina, ficou claro naquele momento. Eu não tinha apoio, se encostasse na borda a água invadiria todo o apartamento. Mais correria pra tirar água da piscina!

Eu planejei um parto na água por 09 meses. Meu plano de parto tinha todo o meu desejo de parir na água…Queria que meu filho viesse ao mundo da água para a água. Sabia e senti na pele que a piscina era uma poderosa arma de alívio contra as dores que eu sentia.

Mas meu filho tinha de nascer, ser recebido com alegria e eu sou guerreira. Se a piscina não rola, ele virá de outra forma, e assim se deu . Veio comigo na banqueta.

Fiquei na piscina o quanto deu, a lembrança mais amorosa que tenho foi da parteira jogando jarras e jarras de água morninha em minha barriga, foco de minha dor.

Quando os puxos vieram sai da piscina e fui pra banqueta e rapidamente meu filho nasceu. Eu venci! Estava com ele em meus braços, morno, escorregadio. Perfeito.

Nada mais importava.

Não tive que trabalhar questões menores. Não me importei em ficar sozinha na fase latente, em ter meu marido comigo no começo da noite ou na piscina fria/furada.

Eu estava com meu filho nos braços. O todo foi incrível. Tive todo o apoio que precisava e eu não esperava. Muitas horas de massagem, comidinha na boca, casa limpa no pós parto, equipe super competente , profissional e amorosa.

Tudo aconteceu da forma que tinha de ser, as coisas são o que são, a força está dentro de nós.

Então se você chegou até o final desse texto reflita e reveja suas expectativas, prioridades e apegos no trabalho de parto. Planeje o grosso, os detalhes, mas não se apegue. As coisas vão acontecer da forma que tem de ser e não necessariamente da maneira que planejamos.

Se sua vontade é estar com a parteira A ou a doula B, ok. É legítimo seu desejo, porém se conscientize de que você vai passar por todo esse processo com ou sem elas. Construa a SUA experiência de parto.

Lidamos com variáveis humanas. Alguém da sua equipe pode adoecer. Seu trabalho de parto pode ser extremamente longo e talvez a doula tenha de revezar a presença com sua parceira. Talvez você ache que vai parir como uma divindade e seu parto seja animal.

Eu não vomito. Odeio vomitar. E depois de anos vomitei seis vezes no trabalho de parto e tudo bem. Não vou me culpar. Eu estava parindo e tudo aconteceu como tinha de ser.

Quando não nutrimos expectativas exageradas e algumas vezes até irreais não nos frustramos. Não culpabilizamos ninguém e saímos leves do parto, sem maiores questões a serem tratadas. E reconhecemos na eventualidade cada gesto de carinho com extremo apreço e gratidão.

A força interior te dá liberdade de parir seus filhos como deve ser, sem figuras externas servindo como ponto de apoio.

A força é de vocês e está dentro de vocês, sempre!

Beleza depois da maternidade

Sempre ouvi e mais de uma vez comentários de outras mulheres a respeito daquelas que se tornaram mães:

-Nossa, mas como a fulana ficou acabada! Olha os cabelos dela…Custa fazer uma unha? Credo. Quando eu tiver filhos não vou ficar assim.

Isso porque não citei as variantes. E hoje ao sair com marido e filho me vi no reflexo de uma vitrine e vi que eu estava muito diferente de como era antes de ter filhos.

Não me achei feia, mas estava longe dos meus cabelos escovados, dos saltos, dos anéis e da maquiagem impecável.

Estava ali caminhando com uma mochila nas costas, cabelos presos num coque e com um batom esmaecido. Sem saltos, sem anéis e com um brinco não puxável. Era eu  na minha face mãe.

Com as unhas limpas, lixadas e feitas. Pintadas apenas com base. Essa era eu mãe de um filho de 01 ano.

E cadê a mulher que habita em mim? A dos olhos pintados, das roupas animadas…Estava ali. Dentro de algum lugar, indisponível naquele momento e nem por isso eu estava triste como pessoas julgadoras podem supor.

Havia em meu rosto a felicidade de sair, de estar em família. De finalmente poder caminhar sozinha sem me preocupar em amamentar, trocar fraldas, pegar água, oferecer fruta, correr pra salvar de uma tragédia anunciada.

Eu assim como outras mães que não tem tempo e nem disposição para estarem externamente impecáveis, querem muitas vezes apenas o sossego das horas calmas.

Termos um tempinho pra poder pensar, para sair do modo tensão e atenção absoluta já é um presente.

E com tantas demandas deles e pouco de nós, descobrimos outras belezas que a maternidade nos traz.

Nossos sorrisos ficam exuberantes. Mesmo cansadas quando interagimos com nossos filhos eles ficam mais lindos. Nossos olhos brilham quando os vemos.

Nossos cachos dão as caras, descobrimos a cor natural de nossos cabelos. Descobrimos maneiras práticas de nos vestirmos e mesmo com tantas demandas é possível e merecemos nos amar e nos sentirmos lindas.

Meu marido esses dias me disse que eu estava bonita com os cabelos bagunçados, natural.

A gente se descobre, os outros nos descobrem e sem cobranças aos poucos nos reconstruímos e descobrimos uma beleza que até então achávamos impossível existir.

Esse post foi inspirado por uma guerreira que doulei. A vi agora nas redes sociais…Vestido estampado, cabelos amarrado com uma mecha ameaçando cair no rosto, colar de pedra, bolsa na transversal, sorriso de orgulho e filho no colo.

Linda. E mãe!

 

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Doulas se resumem a um aperto de mão?

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Sabem porque muitos dizem que as doulas só dão as mãos no trabalho de parto?

Por desconhecerem nosso trabalho. Mas atrás do nosso aperto de mão existe uma preparação intensa durante a gestação.

Doulas se doam integralmente na gestação, se fundindo, sendo apoio emocional durante os 09 meses de gestação.

Levam informações atualizadas a respeito da fisiologia do parto, instituições, exercícios. Você descobre um poder imenso dentro de si até então desconhecido.

Doulas ficam nos bastidores. Preparam o palco todo esse tempo para que VOCÊ mulher protagonize a cena na hora do SEU parto.

Quem pensa que a doula é uma figura necessária apenas no trabalho de parto está enganada!

O que você sabe sobre o acompanhamento de uma doula?

O acompanhamento é feito em três partes distintas que se unificam quando o contrato é fechado. Essas partes são o acompanhamento pré, durante e pós parto.

Três perguntas e respostas sobre esse atendimento podem trazer muita luz para gestantes que optam ou não por ter uma doula durante a gestação.

  • Como uma doula pode me auxiliar na gestação? Minha amiga ou mãe pode substituir seu apoio?

Familiares e amigos podem substituir a figura da doula no sentido afetivo e de acolhida, se todos esses elementos estiverem de acordo com suas decisões e com informações atualizadas.

Se todos esses pontos não estiverem alinhados, a boa vontade de “ajudar” pode ser um tiro no pé. Aos invés de estimularem a mulher a protagonizar este momento podem desestimulá-la com estórias da “prima da vizinha” e com indicação de profissionais não humanizados.

  • Qual é a bagagem e formação da doula para me auxiliarem nessa tomada por informações?

A doula é uma profissional que tem acesso a informações diversas. Doulas são capacitadas em cursos onde aprendem os aspectos técnicos, práticos e psicológicos para atender uma mulher e sua família.

Ela pode indicar profissionais humanizados, partilhar experiências diversas sobre instituições hospitalares e te acolher emocionalmente quando bate aquela insegurança ou mesmo para celebrar bons momentos. Ela não vai se incomodar em falar com você sobre gestação e parto, porque essa é sua profissão.

Diferente da sua conhecida que fica arrepiada quando você começa a falar de gravidez, enjôos e dúvidas.

As pessoas estão em outro momentos, envolvidas em outros assuntos. A doula gesta com você.

  • De que forma prática ela pode me auxiliar em questões diversas?

A doula sempre informada vai saber te indicar os melhores livros para leitura. E sendo você doulada tem a oportunidade de ter acessos a livros emprestados pela própria doula!

Você vai ter segurança na hora de compor seu enxoval, vai fazer de maneira inteligente e sustentável sem ser tratada de maneira infantilizada e sofrendo a sobrecarga de elementos desnecessários.

Ela vai te passar dicas de exercícios de alívio para o corpo em geral, exercícios para o assoalho pélvico. Vai apoiar a amamentação e se for capacitada como consultora vai avaliar aquela super dificuldade de pega fazendo com que este momento desafiante se torne prazeroso sem que você recorra unicamente a bicos e leite artificiais.

Esse texto não tem o objetivo de questionar o seu parir. Sim ele é fisiológico, mas é importante frisar que ele começa na mente também. Uma mente segura, empoderada tem um caminho muito mais suave para ser percorrido. A entrega fica muito mais fácil, porque parto é entrega, descontrole.

A dor existe e é real. Meu filho nasceu em casa, 06 horas de trabalho de parto super intensos. Eu não subestimei a dor mas me surpreendi com ela. Sem dúvida foi a dor mais forte que senti na vida.

E o trabalho mental, o apoio das minhas doulas durante a gestação foram fundamentais naquele momento que eu me conectava comigo. E dentro de mim havia um lindo e forte jardim, que foi plantado por essas mulheres guerreiras e cultivados por mim.

E naqueles momentos desesperadores eu acessei esse jardim. E lá dentro dele não encontrei estórias terríveis, lendas obstétricas. Encontrei apoio, relatos de mulheres que atravessaram esse caminho. Encontrei vozes que sempre me apoiavam e que não me prometiam nada, mas me diziam que sim, é possível parir.

E você? Ainda tem dúvida sobre o papel da doula durante a gestação?

Você e ela juntas vão cultivar um jardim de força que será acessado por você no momento mais importante de sua vida.

Porque protagonizar o parto é isso. Não é apenas parir de cócoras, ouvir sua música predileta. Protagonizar esse momento é assumir a sua gestação e valorizar cada elemento da equipe que fará parte de seu grande dia. Que estará ao seu lado quando atravessar seu portal de cura e depois dele.

Despertem consciencialmente para o seu parto e para a vida!

 

Doula e o luto – Precisamos de preparo!

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Doular é muito ancestral. Resgatamos uma força que não é somente nossa. É uma conexão feminina intensa. Força de nossas tataravós que não conhecemos mas que estão impregnadas em cada pedacinho de nós.

E é assim que venho trilhando e caminhando com outras mulheres, gestantes que desejam um parto respeitoso.

Partilhando cada alegria, descoberta, guerras e contrações. E as vezes luto. Sim, luto… Passei por experiências de luto e todas as vezes cada uma delas me trouxe uma face que as pessoas preferem ocultar que é acolher uma mulher que passou por uma perda gestacional.

Como mulher e mãe desperta e consciente, pego todas aquelas falas (vai passar, você é jovem, poderá ter outros filhos, graças a Deus podia ser deficiente e te dar trabalho, foi livrada) e descarto no lixo de coisas que não devem e não precisam ser ditas.

Essas frases deslegitimam o sentimento da mulher que sofre uma perda deste porte. Não era apenas um embrião, um amontoado de células que a mulher carregava dentro de si.

Era vida. Sonhos. Nome. Um quarto, um sapatinho. Um carinho. Mentalizações. Um coração batia ali dentro daquele ventre.

E com essa perda tudo isso desmorona a olhos vistos. E a família desmorona também. Por alguns momentos eles precisam sentir o auge dessa dor que talvez carreguem por toda uma vida, independente de quantos filhos venham a ter.

E o pior. Em silêncio. Num hospital frio esperando a curetagem. “Mãezinha. Você terá outros. Vá para a casa e descanse.”

Sem um abraço. Sem um aperto de mão. Sem aquela troca silenciosa e acalentadora de olhares. Mulheres passando por um momento tão delicado da maneira mais impessoal possível.

E ai nós mulheres que somos doulas temos que lidar e apoiar essas mulheres. Eu Vanessa Meyrelles me conecto com a gestante de forma pura e intensa. Estou ao lado para lutar, sorrir e também chorar.

E nessa hora sem que ninguém perceba, mesmo forte e serena eu choro suas dores. Sou mãe, sou mulher e sei o quanto passar por essa experiência pode ser doloroso. Sou muito empata e nesses momentos de luto, doulo e quero ser doulada.

Doulas precisam saber lidar e apoiar uma mulher enlutada. Doulas dão apoio psicológico, mas não são psicólogas e enfrentam situações limites que certamente também precisariam de apoio.

Sou da área da saúde e tenho uma bagagem de vida, de experiência que não me faz ser tão crua nessa questão. Tive aulas de psicologia, orientações sobre postura com gestantes, familiares mas e quem não tem essa bagagem?

Eu já vi muitos óbitos. Presenciei muitos suspiros derradeiros. Muitos corpos frios. Vi muitas lágrimas, muitos choros altos de maridos perderem suas companheiras. Muita dor.

E mesmo com essa bagagem eu não quis e não me sinto calejada. Me nego a me acostumar, a deslegitimar uma dor, a dizer que vai passar. Me nego a me blindar para não sofrer junto.

Receber uma mensagem de uma mulher no meio da madrugada que se dirige a um hospital com sangramento e inicio de aborto não é fácil. Ouvir a voz tensa do marido não é fácil porque situações assim nos colocam com a outra extremidade da ponte da vida, do descontrole, da finitude.

Doulas e famílias enlutadas são forjadas no fogo. Todas essas perdas que vivenciei antes de ser doula me fizeram uma pessoa muito melhor. O senso de gratidão se faz absolutamente presente, pessoas se entristecem por não terem coisas supérfluas e eu vi muitos sem condições sequer de se banharem sozinhos. Com um câncer. Se despedindo desse plano, deixando família, filhos.

E ai eu olhava para mim e via que tinha tudo. Absolutamente tudo. Eu tinha vida e viva teria possibilidades.

Possibilidades de evoluir espiritualmente e moralmente, de usar minha empatia em prol de outros, de chegar em casa e agradecer o teto e o pão de cada dia.

Doulas precisam de apoio, precisam estar unidas. Precisam de respaldo psicológico e estar cientes de que no meio do furacão elas serão apoio para muitas mulheres e que portanto necessitam estar fortificadas. Serem empatas, saber acolher e respeitar o tempo de cada família.

Vejo que isso tem se manifestado muito na prática, como caminhar, que se aprende caminhando.

Mas não precisa ser assim. Precisamos de mais vivências, workshops, rodas de cura e grupos de apoio. Para as famílias e para nós também.

Perda gestacional não é uma frustração, é a dor da perda de uma pessoa real e doulas empatas se colocam nesse lugar difícil com a mulher e a família e sentem suas dores.

Digerindo a perda, degustamos a vida.  Apoio é necessário, sempre!