Empreendedorismo materno e chicotadas

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Hoje em dia temos o discurso que após a gravidez teremos novos caminhares profissionais. A mulher se descobre, se reinventa e vitoriosamente acaba descobrindo uma forma de trabalhar empreendendo. Dona do próprio negócio pode fazer seus horários e ficar com seus filhos.

Falando assim é lindo. Engravidou empregada, após a licença ou a mulher é demitida ou se vê encurralada para pedir a conta e tudo bem. Daqui uns meses ela vai se descobrir e vai encontrar seu caminho.

Isso é justo? Isso é ético? Isso é correto?

É humano tirar da mulher, força trabalhadora, muitas vezes arrimo de família a opção de voltar a trabalhar formalmente e ter um tempo digno para criar seus filhos?

Não, não é humano. É surreal. E é assim que nós mulheres somos tratadas no mercado de trabalho. Descartadas como “módis” ou bombril usados. Por outras gestoras mulheres, inclusive.

Engravidou? Quem mandou? Aguenta. Quer amamentar exclusivamente? Não quer dar chupeta? Não quer dar mamadeira? Não quer começar a introdução alimentar mais cedo? Não quer desmamar aos três meses?

Capataz, 100 chicotadas! Arrebenta as costas dessa folgada, tira o sangue dessa safada que quer ordenhar leite no trabalho! Onde já se viu? Eu não amamentei! Quem é você para roubar meu tempo com essa frescura de leite materno?

É isso. TODOS os dias nós mulheres, ventres que geram vidas, que trazem indivíduos novos para a sociedade somos tratadas. Como criminosas.

E criminosas precisam de punição. Precisam ser desligadas da empresa, porque não colhem mais 200 sacas de algodão por dia. Vamos encontrar outra e de preferência castrada e a hora que não prestar a enxotaremos. Porque ela tem marido e ele que a sustente.

Esse pensamento desumano, áspero e rude faz parte de nossa cultura. Não está escrito em lugar nenhum, mas todas as mulheres sabem e protelam, algumas até abrem mão da maternidade por saberem que possivelmente serão demitidas após a mísera licença maternidade de quatro meses.

Está tão intrínseco que outras mulheres gestoras perpetuam essa cultura de descarte. Quantos relatos de mulheres que precisam ordenhar seu leite no banheiro? Lugar destinado a eliminação de dejetos!

Vi um caso no qual uma chefe dizia que o leite materno cheirava mal e que não havia condições da ordenha ser realizada no ambiente de trabalho (!)

E ai entra o “empreendedorismo materno”. A mulher é desligada de forma humilhante do trabalho -não importa se trabalhou 02 ou 10 anos- e como é um ser humano com várias facetas, tem seu intelectual preservado e atuante, descobre outra maneira de se realizar profissionalmente.

Essa maneira inclui trabalhar em casa, ter que bancar do próprio bolso gastos com saúde, trabalhar mais horas por dia, demorar 05 horas para fazer uma tarefa que ela levaria 01 hora porque além de tudo tem seu filho para cuidar.

O mais incrível é que apesar de todo esse caminho espinhoso, muitas se sentem realizadas. Prosperam e não pensam em voltar a trabalhar para outros. Desistem do mundo corporativo, mundo cão, feito por homens e para os homens.

Isso é louvável. Essa vitória, essa volta por cima é admirável. Mas não é justa. Não é correto termos apenas 04 meses de licença e nos desesperarmos com a volta ao trabalho.

Não é justo para a saúde e o bem estar físico do bebê a introdução precoce de alimentos, assim como o desmame. Mulheres voltam aterrorizadas para o trabalho, muitas dão chupeta logo cedo para a criança “acostumar”.

Mulheres, esse sistema precisa ruir. Precisamos relembrar nossa essência e nos unirmos para mudanças na legislação trabalhista. Não adianta contar com a compaixão alheia, porque ela não existe. O sistema é impiedoso.

Justiça é a mulher amamentar seu filho com tranquilidade, esperar o tempo correto de maturação dos órgãos, assim como a capacidade motora para que novos alimentos sejam introduzidos. Engravidar, gestar e parir não é crime.

E com todo esse cenário a mulher ESCOLHE se retoma ou não sua vida profissional. Ela ESCOLHE se vai trabalhar para ela ou para os outros.

Isso é respeito a vida, é ter autonomia em relação ao seu corpo e ao que faz com ele.

Mães não precisam de chicotadas. Precisam de apoio e de respeito.

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