Humanização do parto é frescura?

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Quando estamos no meio da revoada a percepção de muita coisa se altera. Tem que sair pra olhar e ampliar a visão.
 
Um tempo atrás algumas mulheres discutiam sobre a humanização do parto e no meio surgiram falas que me deixaram pensativa.
 
Algumas diziam que éramos radicais, não respeitávamos a decisão da mulher, que havia uma competição entre mães. Rolava até um texto, uma “mea culpa” da mãe que colocava o filho na creche, não usava sling e o alimentava com papinhas.
 
E para eu explicar no meio do sangue nos olhos que nada daquilo fazia sentido? E se de fato existirem mulheres que se consideram superiores por usar sling, alimentar bem seu filho e o colocar na escola mais tarde elas são pontos fora da curva e a culpa é seu ego e não um movimento?
 
Então vamos lá gente, para não ter confusão:
 
Humanizar o parto parece piada né? Somos animais parindo para esse momento ser humanizado?
 
Mas as mulheres que desejam um parto normal no Brasil são tratadas piores que uma gata parindo. A gata parindo a gente deixa quietinha, arranja uma caixa, tecido, deixa água, comida e ela em paz cuidadno dos filhotes. A mulher que quer parir é ridicularizada já na primeira consulta. Eu fui, só não fui enganada porque tinha informação.
 
Eu ia ter de engolir episiotomia de rotina (você homem aceitaria um cortizinho em você? Entre seu orgão genital e seu ânus?), kristeller (“ajudinha” de uma pessoa com uma média de 90kg em cima de mim empurrando minha barriga) podendo lesar minha bexiga e períneo.
 
E quiçá uma cesárea sem real indicação, fora a agenda médica.
 
E quando eu me levantei contra essas práticas já na gestação, virei a louca radical. Nos rotulam para nos silenciar. Usam o senso de pertencer para nos estigmatizar e causar desconforto na família e na sociedade para que enfim, ACEITEMOS todo tipo de violência contra nosso corpo e contra o bebê que nasce.
 
E nasce assim, no gelo do ar, enquanto o médico discute se a pizza é de rúcula ou calabresa. Vai ser aspirado (dói minha gente), vai ter colírio de nitrato sem indicação. Sabe por que?
 
Porque a instituição manda, eu estudei e mando e vocês obedecem sem questionar. Não existem evidências que apoiem essas práticas que se perpetuam nessa sociedade patriarcal. E negras sofrem duplamente quando estão num plantão, afinal “são negras e aguentam tudo”.
 
Ponto. Humanizar o parto não é vela, luz, música, frescura. Humanizar o parto é se pautar em evidências atualizadas na assistência ao parto dando espaço para a mulher protagonizar esse momento. FIM.
 
Ninguém luta, nenhuma de nós põe a cara a tapa, vai pra rua pra dizer que EU sou melhor que VOCÊ que recebeu seu filho por outra via. Deixem o eu, o ego de lado, essa luta é muito maior do que isso.
 
Eu sai da minha casa, atravessei a cidade com meu filho de 09 meses no colo e entrei numa Câmara lotada porque não quero que minha filha passe o que eu passei. Quero uma realidade melhor para ela, não quero vê-la sendo humilhada na hora do momento mais importante de sua vida.
 
Essa luta é nossa, de mulheres, homens, famílias.É a luta de quem deseja se reproduzir.
 
Fim.
 
Quanto a alimentação, chupeta, sling e mamadeira é por conta de vocês. Não existe combo, não existe uma lei dizendo que para você ser boa mãe tem que ficar 24hrs por dia com o filho, andando de saia e se alimentando de orgânicos. Isso é estereótipo que vendem para afastar as mulheres de nossa luta primária.
 
Eu não uso sling, não me adaptei. Alterno entre carrinho e ergobaby. Alimentação aqui sempre foi consciente. Sei dos malefícios do açúcar, dos processados e dos industrializados. Mas se você quiser dar um biscoito recheado não vou te julgar. Seu filho, suas regras. Sem essa de olhares reprovadores, coisa e tal.
 
Atualmente me pouco de falar sobre nossas decisões porque não usamos mamadeira, chupeta e sigo amamentando meu filho em LD até hoje, porque quem recebe essas informações no final da frase já carimba:
 
-Tá se achando!
 
As informações existem e SE ME perguntarem vou passar informações atualizadas, nada mais.
 
Eu sou doula por questões pessoais. Acredito na mudança e senti o chamado de fazer parte dela. Não consigo ter parido de forma respeitosa e ver outras tantas mulheres desinformadas e desassistidas, não é para ser a chata que sabe tudo e fica dando indiretinha em redes sobre parto, coisa chata, viu?
 
O que me move é amor. Eu pari, foi lindo. Podia ficar na minha, tranquila, cada um por si. Não sei o que é vo num ambiente hospitalar porque meu filho nasceu lindamente em casa. Cada um que corra atrás do seu.
 
Mas não sou assim. Não somos assim. Cada mulher, cada homem que luta pela humanização do parto doa muito de si. Informa muitas mulheres que gestam perdidas, fazem palestras voluntariamente, saem de suas casas, deixam filhos no meio da madrugada para atender outras que estão recebendo seus filhos. Dormem em sofás, as vezes mal dá tempo de comer.
 
Isso é trabalhar por amor e não por ego.
 
O primeiro passo para despertar a consciência é fazer com que as pessoas entendam que esse movimento é pautado pelo amor e é por ele que todos os dias estamos prontas para enfrentar um leão e deixar um pouco de nós em outras famílias que despertaram para a importância física, emocional e espiritual de uma assistência ao parto de qualidade.
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