Doulas se resumem a um aperto de mão?

00014

 

Sabem porque muitos dizem que as doulas só dão as mãos no trabalho de parto?

Por desconhecerem nosso trabalho. Mas atrás do nosso aperto de mão existe uma preparação intensa durante a gestação.

Doulas se doam integralmente na gestação, se fundindo, sendo apoio emocional durante os 09 meses de gestação.

Levam informações atualizadas a respeito da fisiologia do parto, instituições, exercícios. Você descobre um poder imenso dentro de si até então desconhecido.

Doulas ficam nos bastidores. Preparam o palco todo esse tempo para que VOCÊ mulher protagonize a cena na hora do SEU parto.

Quem pensa que a doula é uma figura necessária apenas no trabalho de parto está enganada!

O que você sabe sobre o acompanhamento de uma doula?

O acompanhamento é feito em três partes distintas que se unificam quando o contrato é fechado. Essas partes são o acompanhamento pré, durante e pós parto.

Três perguntas e respostas sobre esse atendimento podem trazer muita luz para gestantes que optam ou não por ter uma doula durante a gestação.

  • Como uma doula pode me auxiliar na gestação? Minha amiga ou mãe pode substituir seu apoio?

Familiares e amigos podem substituir a figura da doula no sentido afetivo e de acolhida, se todos esses elementos estiverem de acordo com suas decisões e com informações atualizadas.

Se todos esses pontos não estiverem alinhados, a boa vontade de “ajudar” pode ser um tiro no pé. Aos invés de estimularem a mulher a protagonizar este momento podem desestimulá-la com estórias da “prima da vizinha” e com indicação de profissionais não humanizados.

  • Qual é a bagagem e formação da doula para me auxiliarem nessa tomada por informações?

A doula é uma profissional que tem acesso a informações diversas. Doulas são capacitadas em cursos onde aprendem os aspectos técnicos, práticos e psicológicos para atender uma mulher e sua família.

Ela pode indicar profissionais humanizados, partilhar experiências diversas sobre instituições hospitalares e te acolher emocionalmente quando bate aquela insegurança ou mesmo para celebrar bons momentos. Ela não vai se incomodar em falar com você sobre gestação e parto, porque essa é sua profissão.

Diferente da sua conhecida que fica arrepiada quando você começa a falar de gravidez, enjôos e dúvidas.

As pessoas estão em outro momentos, envolvidas em outros assuntos. A doula gesta com você.

  • De que forma prática ela pode me auxiliar em questões diversas?

A doula sempre informada vai saber te indicar os melhores livros para leitura. E sendo você doulada tem a oportunidade de ter acessos a livros emprestados pela própria doula!

Você vai ter segurança na hora de compor seu enxoval, vai fazer de maneira inteligente e sustentável sem ser tratada de maneira infantilizada e sofrendo a sobrecarga de elementos desnecessários.

Ela vai te passar dicas de exercícios de alívio para o corpo em geral, exercícios para o assoalho pélvico. Vai apoiar a amamentação e se for capacitada como consultora vai avaliar aquela super dificuldade de pega fazendo com que este momento desafiante se torne prazeroso sem que você recorra unicamente a bicos e leite artificiais.

Esse texto não tem o objetivo de questionar o seu parir. Sim ele é fisiológico, mas é importante frisar que ele começa na mente também. Uma mente segura, empoderada tem um caminho muito mais suave para ser percorrido. A entrega fica muito mais fácil, porque parto é entrega, descontrole.

A dor existe e é real. Meu filho nasceu em casa, 06 horas de trabalho de parto super intensos. Eu não subestimei a dor mas me surpreendi com ela. Sem dúvida foi a dor mais forte que senti na vida.

E o trabalho mental, o apoio das minhas doulas durante a gestação foram fundamentais naquele momento que eu me conectava comigo. E dentro de mim havia um lindo e forte jardim, que foi plantado por essas mulheres guerreiras e cultivados por mim.

E naqueles momentos desesperadores eu acessei esse jardim. E lá dentro dele não encontrei estórias terríveis, lendas obstétricas. Encontrei apoio, relatos de mulheres que atravessaram esse caminho. Encontrei vozes que sempre me apoiavam e que não me prometiam nada, mas me diziam que sim, é possível parir.

E você? Ainda tem dúvida sobre o papel da doula durante a gestação?

Você e ela juntas vão cultivar um jardim de força que será acessado por você no momento mais importante de sua vida.

Porque protagonizar o parto é isso. Não é apenas parir de cócoras, ouvir sua música predileta. Protagonizar esse momento é assumir a sua gestação e valorizar cada elemento da equipe que fará parte de seu grande dia. Que estará ao seu lado quando atravessar seu portal de cura e depois dele.

Despertem consciencialmente para o seu parto e para a vida!

 

Doula e o luto – Precisamos de preparo!

Aborto-o-que-não-dizer

 

Doular é muito ancestral. Resgatamos uma força que não é somente nossa. É uma conexão feminina intensa. Força de nossas tataravós que não conhecemos mas que estão impregnadas em cada pedacinho de nós.

E é assim que venho trilhando e caminhando com outras mulheres, gestantes que desejam um parto respeitoso.

Partilhando cada alegria, descoberta, guerras e contrações. E as vezes luto. Sim, luto… Passei por experiências de luto e todas as vezes cada uma delas me trouxe uma face que as pessoas preferem ocultar que é acolher uma mulher que passou por uma perda gestacional.

Como mulher e mãe desperta e consciente, pego todas aquelas falas (vai passar, você é jovem, poderá ter outros filhos, graças a Deus podia ser deficiente e te dar trabalho, foi livrada) e descarto no lixo de coisas que não devem e não precisam ser ditas.

Essas frases deslegitimam o sentimento da mulher que sofre uma perda deste porte. Não era apenas um embrião, um amontoado de células que a mulher carregava dentro de si.

Era vida. Sonhos. Nome. Um quarto, um sapatinho. Um carinho. Mentalizações. Um coração batia ali dentro daquele ventre.

E com essa perda tudo isso desmorona a olhos vistos. E a família desmorona também. Por alguns momentos eles precisam sentir o auge dessa dor que talvez carreguem por toda uma vida, independente de quantos filhos venham a ter.

E o pior. Em silêncio. Num hospital frio esperando a curetagem. “Mãezinha. Você terá outros. Vá para a casa e descanse.”

Sem um abraço. Sem um aperto de mão. Sem aquela troca silenciosa e acalentadora de olhares. Mulheres passando por um momento tão delicado da maneira mais impessoal possível.

E ai nós mulheres que somos doulas temos que lidar e apoiar essas mulheres. Eu Vanessa Meyrelles me conecto com a gestante de forma pura e intensa. Estou ao lado para lutar, sorrir e também chorar.

E nessa hora sem que ninguém perceba, mesmo forte e serena eu choro suas dores. Sou mãe, sou mulher e sei o quanto passar por essa experiência pode ser doloroso. Sou muito empata e nesses momentos de luto, doulo e quero ser doulada.

Doulas precisam saber lidar e apoiar uma mulher enlutada. Doulas dão apoio psicológico, mas não são psicólogas e enfrentam situações limites que certamente também precisariam de apoio.

Sou da área da saúde e tenho uma bagagem de vida, de experiência que não me faz ser tão crua nessa questão. Tive aulas de psicologia, orientações sobre postura com gestantes, familiares mas e quem não tem essa bagagem?

Eu já vi muitos óbitos. Presenciei muitos suspiros derradeiros. Muitos corpos frios. Vi muitas lágrimas, muitos choros altos de maridos perderem suas companheiras. Muita dor.

E mesmo com essa bagagem eu não quis e não me sinto calejada. Me nego a me acostumar, a deslegitimar uma dor, a dizer que vai passar. Me nego a me blindar para não sofrer junto.

Receber uma mensagem de uma mulher no meio da madrugada que se dirige a um hospital com sangramento e inicio de aborto não é fácil. Ouvir a voz tensa do marido não é fácil porque situações assim nos colocam com a outra extremidade da ponte da vida, do descontrole, da finitude.

Doulas e famílias enlutadas são forjadas no fogo. Todas essas perdas que vivenciei antes de ser doula me fizeram uma pessoa muito melhor. O senso de gratidão se faz absolutamente presente, pessoas se entristecem por não terem coisas supérfluas e eu vi muitos sem condições sequer de se banharem sozinhos. Com um câncer. Se despedindo desse plano, deixando família, filhos.

E ai eu olhava para mim e via que tinha tudo. Absolutamente tudo. Eu tinha vida e viva teria possibilidades.

Possibilidades de evoluir espiritualmente e moralmente, de usar minha empatia em prol de outros, de chegar em casa e agradecer o teto e o pão de cada dia.

Doulas precisam de apoio, precisam estar unidas. Precisam de respaldo psicológico e estar cientes de que no meio do furacão elas serão apoio para muitas mulheres e que portanto necessitam estar fortificadas. Serem empatas, saber acolher e respeitar o tempo de cada família.

Vejo que isso tem se manifestado muito na prática, como caminhar, que se aprende caminhando.

Mas não precisa ser assim. Precisamos de mais vivências, workshops, rodas de cura e grupos de apoio. Para as famílias e para nós também.

Perda gestacional não é uma frustração, é a dor da perda de uma pessoa real e doulas empatas se colocam nesse lugar difícil com a mulher e a família e sentem suas dores.

Digerindo a perda, degustamos a vida.  Apoio é necessário, sempre!

A vida é tão rara. Julgue menos, viva mais.

O recado que vou deixar agora é para você que através de palavras, crenças e olhares rebaixa, despreza e desqualifica a mulher que não trabalha fora ou tem um trabalho que a permite passar mais tempo em casa, que segundo a nossa cultura significa não trabalhar (!).

Eu sou uma delas. Como doula faço meus horários e gerencio todo o meu trabalho. Escolho o número de doulagens, de atividades. Agendo as visitas pré e pós parto para horário para horários bons e na maior parte dos atendimentos as mulheres pedem que meu filho esteja presente.

E na outra parte do tempo faço coisas que você ai do alto do seu crachá, de sua empresa, em sua urgência em se desenvolver na carreira e gerenciar um time imenso de pessoas desconhece.

Acordo bem cedinho. Meu despertador é meu filho. Dependente precisa de mim para estar limpo e alimentado.

Provavelmente quando seu despertador tocar e você virar para o lado colocando no soneca e desfrutando mais 10 min de cama eu já estarei de pé há muito tempo.

É duro? Sim, bastante puxado. Você tem 20 min de banho demorado onde bolará diálogos imaginários contra aquele seu colega ou seu chefe chato. Ou quem sabe pensando em qual roupa irá vestir.

E quando chegar no trabalho…Duas horinhas até deslanchar, não é? Café, amenidades, umas horas de trabalho corrido e pronto! Hora de almoçar!

Você come com uma certa tranquilidade a comida que alguém preparou. Usa um prato que alguém lavou e que depois de sujo alguém lavará.

Aqui em casa milhares de coisas foram feitas, a maioria não tendo a minha pessoa como foco principal. Depois de cuidar das necessidades básicas do filho tem a casa, comida, roupas, brincar, amamentar. Sem que eu tenha tempo de parar, uma maratona.

Mas a parte boa e que você desconhece e desprestigia é o imenso capital afetivo que eu estou guardando em minha caixinha de boas lembranças. Agora pode ser irrelevante para você, mas esse amor derramado faz com que eu solte sorrisos bobos de felicidade genuína.

A mulher que passa um tempo como eu em casa convive com o filho ou animais. Com altas energias e vibrações. Eu me canso, mas não me desgasto com pessoas num nível evolutivo menor, carreiristas ou gente falsa.

Convivo com o melhor de mim.

Vivo numa atmosfera mais sensível e observadora. A pressa de alguns momentos me impulsiona, mas não me engole. Então tenho tempo de olhar as coisas mínimas. Que você na sua agitação e produtividade pode achar banal.

Hoje pela manhã levei meu filho para passear. Céu estalando de azul. Muitos passarinhos em frente de casa e vibrei quando meu pequeno começou a imitar o canto deles.

Fomos a um parquinho aqui no final da rua, passamos por muitas árvores que ele olhava atentamente. Esticava as mãozinhas para tocar nas folhas.

Lá no parquinho ficou extasiado com o pé na areia e o balanço. Sorria, gargalhava. Quatro dentinhos em cima e eu vi quando cada um despontou. Eu vi os primeiros passos do meu filho. Eu ouvi a primeira palavra que ele disse. Foi “mamãi”.

Quantos reais você desembolsaria para ter essas lembranças?

Você pode entender como quiser essa vida que eu e muitas mulheres optaram viver, mas nunca poderá sentir.

Eu vejo a alegria e satisfação nos olhos de meu marido e meu filho quando coloco a mesa. Comidas frescas, feitas por mim e com amor. Sem tempero químico, sem óleo aos montes, sem funcionária fazendo cara de ódio para servir.

Me sinto capaz quando estou na cozinha ouvindo minhas músicas, vendo as árvores balançarem e picando cada ingrediente. Me sinto viva quando a pressão apita e o cheirinho de comida se espalha pela casa.

E o chá que faço a tarde? As vezes a noitinha? Perfuma todo o ambiente, nos aquece.

Talvez se todos nós tivéssemos vidas e opções iguais tantas vivências e lembranças não existiriam. E seríamos todos mais do mesmo.

Eu não me preocupo em dar roupas de marca, brinquedos caros ou super viagens aos meus filhos. Não preciso me preocupar com a fatura do cartão no final do mês porque eu sequer tenho cartão. Abasteço meu filho com amor, colo, carinho.

Sento e brinco com ele. Cada marco de seu desenvolvimento foi vivenciado por mim. E isso dinheiro nenhum do mundo pode me proporcionar.

Entendam a efemeridade da vida. Entendam que as pessoas são livres por suas escolhas. Você é livre para trabalhar fora, use sua liberdade e não o julgamento.

Nós com um viver mais flexível não precisamos deles. Temos nossos motivos, nossos prós, nossos contras. Assumimos todos eles sem bater na sua casa para pedir comida ou pedindo que pague nossas contas.

Respeite-nos.

Provavelmente no fim das contas você terá uma bela casa. Um carro muito melhor que o meu.

Provavelmente você vai para a Disney com seus filhos. E eu para Ubatuba.

Com certeza seus sapatos serão mais caros e melhores que o meu. Seu celular mais novo, suas cadeiras de madeira maciça. Terá uma empregada.

E eu muito provavelmente terei uma realidade materialmente falando bem mais simples. Aqui em casa não teremos empregadas, todos ajudarão nas tarefas domésticas.

Talvez nem casa própria tenha porque não me dispus a trabalhar no ritmo do mundo corporativo.

Mas tenha certeza que as melhores lembranças, aquelas que as pessoas hoje em dia nem imaginam existir serão minhas.

Vou me deitar e lembrar das minhas manhãs com cheiro de chá fresco, da mesa pronta. Das descobertas, da interação do meu filho  com os animais da casa.

Vou me lembrar dele sujo de terra, comendo a ração dos gatos escondidos. Vou me lembrar daquela tarde que passei enrolando brigadeiros para seu aniversário.

Dos jantares juntos. A cama cheia a noite. Risadas. Abraços, beijos.

E vou olhar para trás orgulhosa, com a certeza de que minhas opções são apenas minhas e fizeram todo o sentido.

Você aprovando ou não. Você me rebaixando ou não. Você me desqualificando ou não.

Percebe? A vida é tão rara. Existe um mundo afetivo, iluminado que vai muito além de um crachá, de um CNPJ. Viva a sua, suas escolhas sem julgamentos.

Fiz escolhas. Me recusei, fiz hora, fui para a valsa.

A vida é tão rara.IMG_9940eufil