A vida é tão rara. Julgue menos, viva mais.

O recado que vou deixar agora é para você que através de palavras, crenças e olhares rebaixa, despreza e desqualifica a mulher que não trabalha fora ou tem um trabalho que a permite passar mais tempo em casa, que segundo a nossa cultura significa não trabalhar (!).

Eu sou uma delas. Como doula faço meus horários e gerencio todo o meu trabalho. Escolho o número de doulagens, de atividades. Agendo as visitas pré e pós parto para horário para horários bons e na maior parte dos atendimentos as mulheres pedem que meu filho esteja presente.

E na outra parte do tempo faço coisas que você ai do alto do seu crachá, de sua empresa, em sua urgência em se desenvolver na carreira e gerenciar um time imenso de pessoas desconhece.

Acordo bem cedinho. Meu despertador é meu filho. Dependente precisa de mim para estar limpo e alimentado.

Provavelmente quando seu despertador tocar e você virar para o lado colocando no soneca e desfrutando mais 10 min de cama eu já estarei de pé há muito tempo.

É duro? Sim, bastante puxado. Você tem 20 min de banho demorado onde bolará diálogos imaginários contra aquele seu colega ou seu chefe chato. Ou quem sabe pensando em qual roupa irá vestir.

E quando chegar no trabalho…Duas horinhas até deslanchar, não é? Café, amenidades, umas horas de trabalho corrido e pronto! Hora de almoçar!

Você come com uma certa tranquilidade a comida que alguém preparou. Usa um prato que alguém lavou e que depois de sujo alguém lavará.

Aqui em casa milhares de coisas foram feitas, a maioria não tendo a minha pessoa como foco principal. Depois de cuidar das necessidades básicas do filho tem a casa, comida, roupas, brincar, amamentar. Sem que eu tenha tempo de parar, uma maratona.

Mas a parte boa e que você desconhece e desprestigia é o imenso capital afetivo que eu estou guardando em minha caixinha de boas lembranças. Agora pode ser irrelevante para você, mas esse amor derramado faz com que eu solte sorrisos bobos de felicidade genuína.

A mulher que passa um tempo como eu em casa convive com o filho ou animais. Com altas energias e vibrações. Eu me canso, mas não me desgasto com pessoas num nível evolutivo menor, carreiristas ou gente falsa.

Convivo com o melhor de mim.

Vivo numa atmosfera mais sensível e observadora. A pressa de alguns momentos me impulsiona, mas não me engole. Então tenho tempo de olhar as coisas mínimas. Que você na sua agitação e produtividade pode achar banal.

Hoje pela manhã levei meu filho para passear. Céu estalando de azul. Muitos passarinhos em frente de casa e vibrei quando meu pequeno começou a imitar o canto deles.

Fomos a um parquinho aqui no final da rua, passamos por muitas árvores que ele olhava atentamente. Esticava as mãozinhas para tocar nas folhas.

Lá no parquinho ficou extasiado com o pé na areia e o balanço. Sorria, gargalhava. Quatro dentinhos em cima e eu vi quando cada um despontou. Eu vi os primeiros passos do meu filho. Eu ouvi a primeira palavra que ele disse. Foi “mamãi”.

Quantos reais você desembolsaria para ter essas lembranças?

Você pode entender como quiser essa vida que eu e muitas mulheres optaram viver, mas nunca poderá sentir.

Eu vejo a alegria e satisfação nos olhos de meu marido e meu filho quando coloco a mesa. Comidas frescas, feitas por mim e com amor. Sem tempero químico, sem óleo aos montes, sem funcionária fazendo cara de ódio para servir.

Me sinto capaz quando estou na cozinha ouvindo minhas músicas, vendo as árvores balançarem e picando cada ingrediente. Me sinto viva quando a pressão apita e o cheirinho de comida se espalha pela casa.

E o chá que faço a tarde? As vezes a noitinha? Perfuma todo o ambiente, nos aquece.

Talvez se todos nós tivéssemos vidas e opções iguais tantas vivências e lembranças não existiriam. E seríamos todos mais do mesmo.

Eu não me preocupo em dar roupas de marca, brinquedos caros ou super viagens aos meus filhos. Não preciso me preocupar com a fatura do cartão no final do mês porque eu sequer tenho cartão. Abasteço meu filho com amor, colo, carinho.

Sento e brinco com ele. Cada marco de seu desenvolvimento foi vivenciado por mim. E isso dinheiro nenhum do mundo pode me proporcionar.

Entendam a efemeridade da vida. Entendam que as pessoas são livres por suas escolhas. Você é livre para trabalhar fora, use sua liberdade e não o julgamento.

Nós com um viver mais flexível não precisamos deles. Temos nossos motivos, nossos prós, nossos contras. Assumimos todos eles sem bater na sua casa para pedir comida ou pedindo que pague nossas contas.

Respeite-nos.

Provavelmente no fim das contas você terá uma bela casa. Um carro muito melhor que o meu.

Provavelmente você vai para a Disney com seus filhos. E eu para Ubatuba.

Com certeza seus sapatos serão mais caros e melhores que o meu. Seu celular mais novo, suas cadeiras de madeira maciça. Terá uma empregada.

E eu muito provavelmente terei uma realidade materialmente falando bem mais simples. Aqui em casa não teremos empregadas, todos ajudarão nas tarefas domésticas.

Talvez nem casa própria tenha porque não me dispus a trabalhar no ritmo do mundo corporativo.

Mas tenha certeza que as melhores lembranças, aquelas que as pessoas hoje em dia nem imaginam existir serão minhas.

Vou me deitar e lembrar das minhas manhãs com cheiro de chá fresco, da mesa pronta. Das descobertas, da interação do meu filho  com os animais da casa.

Vou me lembrar dele sujo de terra, comendo a ração dos gatos escondidos. Vou me lembrar daquela tarde que passei enrolando brigadeiros para seu aniversário.

Dos jantares juntos. A cama cheia a noite. Risadas. Abraços, beijos.

E vou olhar para trás orgulhosa, com a certeza de que minhas opções são apenas minhas e fizeram todo o sentido.

Você aprovando ou não. Você me rebaixando ou não. Você me desqualificando ou não.

Percebe? A vida é tão rara. Existe um mundo afetivo, iluminado que vai muito além de um crachá, de um CNPJ. Viva a sua, suas escolhas sem julgamentos.

Fiz escolhas. Me recusei, fiz hora, fui para a valsa.

A vida é tão rara.IMG_9940eufil

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