Leite nas tetas e amor no coração

 

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Vanessa Meyrelles e Álvaro. 01 ano e 06m de amamentação LD.

Pensei muito antes de postar essa foto.

Não pela “exposição”. Um corpo que amamenta, acolhe e cuida merece todo o respeito do mundo. Pensei nas mulheres que não conseguiram amamentar e que por algum motivo se sentissem desconfortáveis com esse registro, mas com ele vão minhas palavras de acolhimento, não julgamento e partilha de experiências.

Antes de engravidar não pensava em amamentação porque simplesmente não era um assunto que fizesse parte do meu universo.

Me preparei muito para o parto e nada para a amamentação. Não li nenhum livro, não frequentei grupos, simplesmente achava que era instintivo. Minha mãe amamentou por 04 meses exclusivamente os dois filhos. Achava normal.

Dizia que foi sofrido e que a mamadeira com fórmula foi algo natural e que trouxe um alívio pra ela. Das dores, das fissuras e no segundo filho da rotina pesada de cuidar da casa, de mim com seis anos sozinha.

Na fala dela eu vi que precisaria de apoio. Mesmo que fosse fácil, amamentar sem apoio eu não conseguiria, afinal, cuidar da casa, da rotina e amamentar devia ser impossível.

Quando meu filho nasceu fui presenteada com um bebê voraz, que nasceu sabendo mamar. Ele mamava com boca de peixinho!

Nos primeiros três dias eu vi o que me esperava. Ele não desgrudava do peito, eu ainda tinha uma sensibilidade que hoje não tenho e quando meu leite desceu, a tão famosa apojadura, eu que não me preparei achei que fosse morrer.

Eu tremia, tinha calafrios e perdi totalmente o chão. Meu marido se assustou, ligou para a parteira que nos orientou e tudo se acertou.

Enfim, via meu peito cheio de leite. Enorme, próximo da explosão e li que se ele empedrasse eu teria problemas. Uma tal de mastite, que doia pacas.

Também descobri que tirar o excesso com a bombinha estimularia mais a produção, eu teria que lidar com o excesso até o corpo se acertar.

Foi bem difícil, mas passei por este período sem fissura, sem mastite e sem dor. Sentia prazer ao ver que meu corpo funcionava e que eu era capaz de alimentar meu filho.

Mas eu tinha que me adaptar a demanda. Peito toda hora. Dia e noite. Tive que rever roupas, soutiens até me encontrar. Tops sem costura molinhos foram minha salvação.

Os meses foram passando e a minha licença chegando próximo do fim. Nada do meu filho desgrudar do peito! Puxa, eu amava amamentar, nutri-lo era uma questão forte pra mim. Por convicção não demos chupeta ou qualquer outro bico artificial. Lidei com choros intermináveis, colo, colo e peito em livre demanda. Como me separar do meu filho?

Comecei a ler. Entrei em grupos, estava desesperada. Precisava garantir que meu filho recebesse meu leite mesmo longe de mim.

Vi que eu deveria ordenhar e armazenar o leite. Encontrar os potes foi um sofrimento, ou eram grandes, ou com o bocal pequeno. Vi que ninguém se importava com a mulher que decidia armazenar o leite para seu filho.

Comprei uma bomba para extração, que foi horrível. Vi meu leite se misturou com sangue, a dor era excruciante. Tudo o que eu não senti, tudo o que não me feriu, aquele aparelho me machucava.

Chorei demais. Minha única opção era a ordenha manual.

E assim foi. Eu passei a ordenhar meu leite manualmente, mas pra isso eu acordava bem cedo antes do meu filho e aproveitava os seis cheios para ordenhar. Meus dedos doíam. Eu queria dormir um pouco mais mas o leite dele era mais importante.

Saiam pinguinhos de nada. 10ml para mim eram uma vitória. Com persistência comecei a ordenhar 75 ml rapidinho. Quando estava calma e feliz saia mais leite então eu ordenhava ao lado do meu filho e meu marido.

Eu ficava melada. Eu cheirava leite. Minhas roupas tinham esse cheiro doce e eu me sentia orgulhosa de ter vencido essa batalha.

Enchi o freezer de potinhos em 15 dias ordenhando na mão. Meu leite era lindo, ficava cremoso, branquinho.

O processo de armazenar era sofrido. Tinha que esterilizar os potes, deixar secando. Não esqueço a sensação do meu rosto queimando com o vapor que saia da panela. Etiquetas. Caneta especial. Data.

Cada gotinha era sagrada.

Voltei para o trabalho e passei o dia com meus seios enchendo. Minha mãe me ligava e eu podia ouvir meu filho chorar de fome enquanto eu estava com os seios arrebentando de leite.

No horário do meu café avisei outras funcionárias e disse o quanto era importante a não interrupção da ordenha, eu iria me trancar na cozinha, estaria sem blusa e pedi que por favor, por nada no mundo me interrompessem.

Entrei naquela cozinha pequena, com o ar condicionado ligado e numa cadeirinha fechei os olhos e pensei no meu filho. Chorei.

Abaixei minha blusa, coloquei as músicas do parto e da bolsa tirei uma roupinha usada dele. Queria sentir seu cheiro. Ali em meio a tralhas e barulhos eu ia fazer minha ordenha.

Comecei. As mãos já estavam meladas, o leite jorrava, o seio doía. Estava engrenando quando alguém bate na porta. Eu PEDI que por favor não me interrompessem e a alguém precisava de sua bolsa.

Naquele momento vi que amamentar era importante apenas para mim e para meu filho. Enxuguei as lágrimas, me vesti, me lavei, guardei meu potinho e encerrei minha ordenha ali.

Voltei para casa a 160km por hora. Em 08 minutos eu estava lá. Pelo caminho me livrei do salto agulha e corri o máximo que pude.

Cheguei em casa e meu filho dormia e antes de vê-lo, encontrei um body seu no cantinho do sofá. Cheirava leite, meu leite derramado.

Ele chorou sem parar. Minha mãe disse que em determinado momento viu que era choro de saudade. Não aceitou o leite no copinho e nem na colherzinha. Ele tinha 05 meses.

Eu tentei amamentá-lo mas ele não quis. Pela primeira vez me rejeitava. Eu desabei e chorei como uma criança. Solucei, me rasguei, me quebrei.

Decidi pedir a conta no outro dia, para mim, nada era mais importante que continuar esse processo. Foram 10 anos de CLT que eu abri mão.

Me senti aliviada. Eu podia alimentar meu filho! Decidi que seria doula, outras mulheres mereciam e podiam ter um parto respeitoso e uma amamentação possível.

Me capacitei doula e acompanhando outras mulheres vi o quão difícil é amamentar. São muitas questões que não cabem julgamentos, mas sim auxílio e apoio quando existe essa abertura.

Meu filho está com 01 ano e 06 meses. Esse registro é de hoje. Com a vida corrida não tenho tempo para mim. Fotografo tantas mulheres amamentando e eu mesma não tenho quase nenhum registro desse momento no tempo presente.

Então decidi que de mansinho, hoje seria nosso dia de celebrar e entre trancos e barrancos me vi neste registro com muito orgulho do meu corpo capaz, do meu filho e de tudo o que passei.

Meu filho e a amamentação mudaram minha vida para sempre. Hoje sou doula e fotógrafa e amo o que faço. Meu trabalho é desenvolvido em muitos momentos com meu filho nos braços mamando, como acontece agora que estou escrevendo meu relato.

Se eu não insistisse na amamentação não seria o que sou. Meu filho e eu estaríamos vivos, mas a alegria que sinto hoje com tantos desdobramentos não seriam parte de mim.

Pela amamentação eu pedi a conta do emprego, devolvi meu imóvel para a construtora. Meu sonho de amamentar era maior que o sonho da casa que eu poderia lutar mais a frente.

Ainda amamento em livre demanda, inclusive a noite. É difícil, é cansativo mas ainda sim persisto e vou amamenta-lo até quando ele quiser.

Por isso a foto, porque eu me acho merecedora depois de tudo o que enfrentamos. Eu quero sambar na cara da Nestlé. Eu quero que rufem os tambores porque meu filho foi nutrido por mim e eu vi nos meus braços que não existe leite fraco.

Que todos se conscientizem que não existe amamentação fácil. No meu caso a parte física do processo foi ok, mas tive de enfrentar muitas dificuldades. Volta ao trabalho sofrida, tive que abri mão de emprego, imóvel, claro, por minha opção, mas tive. Vi muita cara feia que tem aumentado conforme meu filho cresce. Falas condenatórias (seu filho come? é criado, bezerrão e ainda mama?) ouço de vez em sempre.

Essa semana é minha, é nossa, é de todas as mulheres. É de quem amamentou, é de quem não amamentou. Nossa união é feita pelo útero.

Resistam, resistam mulheres.

Sangue nas veias, leite nas tetas, amor no coração!