Doula e o luto – Precisamos de preparo!

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Doular é muito ancestral. Resgatamos uma força que não é somente nossa. É uma conexão feminina intensa. Força de nossas tataravós que não conhecemos mas que estão impregnadas em cada pedacinho de nós.

E é assim que venho trilhando e caminhando com outras mulheres, gestantes que desejam um parto respeitoso.

Partilhando cada alegria, descoberta, guerras e contrações. E as vezes luto. Sim, luto… Passei por experiências de luto e todas as vezes cada uma delas me trouxe uma face que as pessoas preferem ocultar que é acolher uma mulher que passou por uma perda gestacional.

Como mulher e mãe desperta e consciente, pego todas aquelas falas (vai passar, você é jovem, poderá ter outros filhos, graças a Deus podia ser deficiente e te dar trabalho, foi livrada) e descarto no lixo de coisas que não devem e não precisam ser ditas.

Essas frases deslegitimam o sentimento da mulher que sofre uma perda deste porte. Não era apenas um embrião, um amontoado de células que a mulher carregava dentro de si.

Era vida. Sonhos. Nome. Um quarto, um sapatinho. Um carinho. Mentalizações. Um coração batia ali dentro daquele ventre.

E com essa perda tudo isso desmorona a olhos vistos. E a família desmorona também. Por alguns momentos eles precisam sentir o auge dessa dor que talvez carreguem por toda uma vida, independente de quantos filhos venham a ter.

E o pior. Em silêncio. Num hospital frio esperando a curetagem. “Mãezinha. Você terá outros. Vá para a casa e descanse.”

Sem um abraço. Sem um aperto de mão. Sem aquela troca silenciosa e acalentadora de olhares. Mulheres passando por um momento tão delicado da maneira mais impessoal possível.

E ai nós mulheres que somos doulas temos que lidar e apoiar essas mulheres. Eu Vanessa Meyrelles me conecto com a gestante de forma pura e intensa. Estou ao lado para lutar, sorrir e também chorar.

E nessa hora sem que ninguém perceba, mesmo forte e serena eu choro suas dores. Sou mãe, sou mulher e sei o quanto passar por essa experiência pode ser doloroso. Sou muito empata e nesses momentos de luto, doulo e quero ser doulada.

Doulas precisam saber lidar e apoiar uma mulher enlutada. Doulas dão apoio psicológico, mas não são psicólogas e enfrentam situações limites que certamente também precisariam de apoio.

Sou da área da saúde e tenho uma bagagem de vida, de experiência que não me faz ser tão crua nessa questão. Tive aulas de psicologia, orientações sobre postura com gestantes, familiares mas e quem não tem essa bagagem?

Eu já vi muitos óbitos. Presenciei muitos suspiros derradeiros. Muitos corpos frios. Vi muitas lágrimas, muitos choros altos de maridos perderem suas companheiras. Muita dor.

E mesmo com essa bagagem eu não quis e não me sinto calejada. Me nego a me acostumar, a deslegitimar uma dor, a dizer que vai passar. Me nego a me blindar para não sofrer junto.

Receber uma mensagem de uma mulher no meio da madrugada que se dirige a um hospital com sangramento e inicio de aborto não é fácil. Ouvir a voz tensa do marido não é fácil porque situações assim nos colocam com a outra extremidade da ponte da vida, do descontrole, da finitude.

Doulas e famílias enlutadas são forjadas no fogo. Todas essas perdas que vivenciei antes de ser doula me fizeram uma pessoa muito melhor. O senso de gratidão se faz absolutamente presente, pessoas se entristecem por não terem coisas supérfluas e eu vi muitos sem condições sequer de se banharem sozinhos. Com um câncer. Se despedindo desse plano, deixando família, filhos.

E ai eu olhava para mim e via que tinha tudo. Absolutamente tudo. Eu tinha vida e viva teria possibilidades.

Possibilidades de evoluir espiritualmente e moralmente, de usar minha empatia em prol de outros, de chegar em casa e agradecer o teto e o pão de cada dia.

Doulas precisam de apoio, precisam estar unidas. Precisam de respaldo psicológico e estar cientes de que no meio do furacão elas serão apoio para muitas mulheres e que portanto necessitam estar fortificadas. Serem empatas, saber acolher e respeitar o tempo de cada família.

Vejo que isso tem se manifestado muito na prática, como caminhar, que se aprende caminhando.

Mas não precisa ser assim. Precisamos de mais vivências, workshops, rodas de cura e grupos de apoio. Para as famílias e para nós também.

Perda gestacional não é uma frustração, é a dor da perda de uma pessoa real e doulas empatas se colocam nesse lugar difícil com a mulher e a família e sentem suas dores.

Digerindo a perda, degustamos a vida.  Apoio é necessário, sempre!

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Entre apego e amor escolho amor.

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Eu não crio com apego porque escolhi criar com amor. Vivo para me desapegar. De sentimentos, de pessoas, de coisas, de situações. Nada nos pertence a não ser nós mesmos, nossa individualidade.

Do mais, tudo é livre, volátil e mutável. Inconstância, fluidez. Águas da vida.

Seu filho não é seu, seu marido não é seu, seu gato não é seu. Estão com você, o que é muito diferente.

Apego me traz a sensação de posse e é o que senti ao decidir que a criação com apego era de fato a “filosofia de criação” aqui em casa.

Grávida, mãe de primeira viagem tudo que é rezado nesse recorte de viver atrai, principalmente a mim que tenho uma fissura interior que jamais irá se curar, por conta da baixa afetividade que me envolveu da infância até os dias de hoje.

Decidi dentro de mim reescrever minha história. Criar meu filho sem gritos, sem rompantes de agressividade, violência e abuso emocional. Eu poderia fazer diferente e a teoria da Criação foi muito bem vinda.

Cama compartilhada, pais presentes, afeto, acolhimento. Não deixar chorar, não terceirizar os cuidados. Sim, tudo isso é lindo, mas tem um nome…AMOR! É simples, amor puro e derramado.

Demonstrá-lo e romper dogmas velhos sobre criar filhos é o que fazemos todos os dias aqui em casa, mas sem me tornar refém de uma cartilha que pode apontar o dedo para mim a cada vez que eu fizer algo diferente.

Com um filho demandante nos bracos é fácil entender porque com algum tempo de vida, lá pelos 05 meses a mãe opta por deixar o bebe pelo menos numa parte da noite dormir em seu quarto. É possível fazer a transição sem sofrimento e se houver…RECUE! Somos livres, instintivas. A mãe sabe olhar seu filho e ler o descontentamento em seus olhos, em seu choro.

Eu me sentia um monstro por precisar ir ao banheiro e ouvir meu filho chorar. Por querer uma noite de sono onde eu pudesse me esparramar e dormir continuamente.

Tem um artigo rolando nas redes sociais sobre a ansiedade da separação dos 08 meses. Legal, li, ok. Mas peraí, brother…

O artigo fala que a ausência mesmo que por  poucas horas e tendo a criança estado aos cuidados de alguém amoroso, mesmo assim ela pode ficar traumatizada até os 05 anos de idade!

CINCO ANOS de idade e eu não poderei sair meio período e deixar meu filho com terceiros porque ele ficará traumatizado. Sim, desenvolverá um comportamento arredio, depressivo, ansioso porque no dia 10 de janeiro eu sai pela manhã para comprar pão e o deixei com o pai.

É isso que rola. Essa culpa enorme, mais essa que nós MULHERES temos que carregar.

Claro que é uma situação nova, estressante, óbvio. Não discordo. Mas dai falar de traumas eternos e incuráveis, quase que na mesma categoria de um abuso sexual, emocional ou físico ao meu ver é muito pesado.

Essas e outras coisas me distanciaram cada vez mais do termo “criação com apego”. Prefiro criar meu filho com o amor, porque este sentimento é multidirecional. Também vou me amar, me preservar e estar com a sanidade mental preservada, revigorada fisicamente para atender as demandas de um novo ser em sua plenitude.

 

 

 

 

Bebê não faz manha. Você é que tem medo.

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Bebê que chora não é manhoso. Bebê que chora age por instinto e está se comunicando com você.

Pelo choro.

Em pleno 2015 vejo muitas pessoas insistirem na tese de que “bebê que chora é manhoso” e mesmo eu explicando que bebês não choram com o intuito de manipular adultos pois não possuem capacidade para elaborar raciocínio (vou chorar pra ela aprender) pois não entendem a relação causa e efeito, muitos decidem com si mesmos não darem ouvido ao que a ciência fala e encaram todo e qualquer choro como manha.

E não acolhem. Deixam chorar.

Me ponho a pensar…Será este comportamento é apenas a reprodução de conceitos ultrapassados?

Não, não é. E vou dizer o motivo.

Quando um bebê chora ele te chama a ação. E a ação é basicamente afetiva. Ele não quer um iate, um sapato caro ou um colar de brilhantes. Sim, no choro que é seu único meio de comunicação além de pedir “troque minha fralda” ou “estou com calor ou frio”, “estou com fome ou dor” ele sinaliza necessidade de afeto.

O choro que corta a alma muitas vezes quer apenas seu colo. Se calor, seu amor. Quer que seu corpo expresse sentimentos de acolhida. Que você o proteja, o embale, dê atenção.

Muitas pessoas por diversos motivos tem enormes barreiras afetivas em si que se refletem tanto na doação quanto na hora de receber afeto. Dai vem a imensa dificuldade de acolher um choro sem se irritar, sem se sentir manipulada.

O choro convida a gritos as pessoas darem o que elas tem dificuldade de expressar, que é a afetividade. E quando isso acontece, o mecanismo interno de proteção é acionado e o velho lema de “bebês choram por manha” vira apoio.

E não importa o quanto você explique cientificamente que não é, a muralha existe e se sustenta na manha. A manha dá passe livre para você “educar” e não acolher seu filho neste momento que ele mais precisa de você.

Além disso identificar o motivo de um choro requer vínculo. E vínculo não é parir. Vínculo pode ser estabelecido com pessoas inclusive fora da família. Quantos bebês se vinculam a babás? E o vínculo marital? Eu e meu marido conversamos pelo olhar, arrisco dizer que até por pensamento. Não precisamos de palavras para nos comunicarmos.

Com o bebê a vinculação é até mais forte, chega a ser uma questão de sobrevivência. Quando ela por algum motivo não ocorre, por motivos emocionais inclusive, fica muito difícil identificar a fonte do choro, porque faltou esse aprendizado de leitura. Choro é sentimento. Em cada decibel.

Eu consigo identificar cada choro do meu filho. Sono, fome, cansaço, tédio, cólica. Quando quer mais tempo de chamego. Se quer brincar, mudar de posição. Cada chorinho tem um motivo e nenhum até o momento é por manha.

Mas para identificar isso a ponte teve que ser construída e a matéria-prima é o afeto. Quando temos essa questão afetiva resolvida dentro de nós, as relações humanas não nos amedrontam. Sabemos amar, nos entregar. Não temos medo de nos cortar ou nos decepcionar com relações, porque somos amor e nos refazemos.

Não temos medo de ser feitos de bobos, de entregarmos nosso carinho de bandeja. Não tememos criar maus elementos manhosos que nos maltratarão no futuro e que portanto merecem nossa desconfiança no presente, porque sabemos que o afeto requer entrega, tem sede do presente.

Vejo agora que se refugiar no velho saber de que “bebês são manipuladores” é uma expressão profunda de medo. Medo de amar, medo de se entregar, medo de se machucar.

Não deixe o choro do bebê te paralisar. Bebês não fazem manha. Bebês se comunicam pelo choro.

Lembre-se disso, acolha seu bebê. Feche os olhos e abra seus braços e coração.