Sobre Mães e Culpa

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Assistindo uma entrevista com a atriz Cássia Kiss vi que ela se orgulha de ser uma super mãe. Apesar de todos os abusos sofridos por ela em sua infância e de ter as lembranças mais doloridas, ela conseguiu perdoar sua mãe e reescrever sua história sendo agora para seus filhos uma mãe diferente.Seus filhos tem uma alimentação regrada, ela acompanha os deveres de escola, amamentou até os 04 anos seu filho Miguel, permite que eles pulem em seu colchão de R$ 10.000,00 -mas em alguns momentos ela disse que teria feito algumas coisas de maneira diferente- e é ai que chegamos no ponto que eu quero.

Quem muitas vezes surge? A culpa. Dizem que mães nascem com ela.

Aparecem disfarçadas ou explícitas. Culpa por ter gritado, por não ter acompanhado o dever naquele dia cansativo, por não ter picado abacaxis e ter feito suco natural ao invés de deixar que o filho tomasse um copo de refrigerante num dia da semana.

A culpa é sorrateira e poderosa. Tão poderosa que ela se reproduz assexuadamente. Ligeira ela brota. E vai tomando conta aos pouquinhos da gente. Ela é tão ardilosa que aparece quando sequer fizemos algo de concreto para que ela pudesse surgir.

Que mãe nunca sentiu culpa ao pensar, vejam bem, PENSAR em voltar ao trabalho depois da licença maternidade? Culpa por não ter grana para levar seu filho pra Disney para ele conferir se o Mickey é preto ou azul marinho? Sabe, nos culpamos por coisas irrelevantes na maioria das vezes. E tanto nos culpamos que esquecemos do que realmente importa. Esquecemos que viver faz parte e parte desta vida estão os tropeços.

Tropeços nossos e dos nossos filhos. Porque antes de sermos mães somos filhas. Antes de sermos filhas, somos gente. Temos nossas fragilidades, nossos medos, nossas angústias, nossas crenças. E estamos recebendo de braços abertos uma nova vida, um ser que está aprendendo a andar, a comer. E nós ao seu lado com toda boa vontade do mundo aprendendo a ser mães. Todos juntos nessa caminhada.

Muitas vezes a perfeição, o equilíbrio na criação que almejamos, pois ai sim estaremos redimidas e livres da culpa de ser “menos main” saibam, jamais serão alcançados. Sabem por que?

Porque a perfeição existe apenas em nossa mente.

A natureza assim nos fez. E ela é sábia. Com os erros nos tornamos mais fortes e melhores. E é muitas vezes com eles que acertamos. Erros são necessários para a manutenção da vida.

Como mãe estou cometendo alguns “erros”. Deliciosos se querem saber!

Faço cama compartilhada com meu filho. Dou colo inclusive quando ele não chora. Permito que meus gatos convivam com ele, tenho registros que deixariam o pediatra mais conservador de cabelo em pé! Ouço médicos dizerem coisas terríveis em relação a gatos e bebês, mas mesmo assim eu desobedeço e mantenho a relação que segue harmoniosamente linda entre meus filhos.

Na gravidez não ouvi música clássica. Não porque não goste, mas não estava afim. Preferi muitas vezes Led Zepellin a Mozart. Dizem que bebês DEVEM ouvir música clássica. Ninguém questiona se NÓS queremos ouvir.

Eu sou mãe fresca, de primeira viagem. Sou uma pessoa que passou muitos anos sem pensar em filhos e portanto sem saber nada sobre bebês e crianças. E mães. E culpa.

Estou com esforço administrando o sentimento de algumas pequenas culpas diárias em mim, principalmente quando eu voltar a trabalhar. Em alguns momentos vejo que tentar ser a mãe perfeita não é o melhor caminho.

São algumas “falhas” que me farão mãe, me darão o atestado de ser gente, de ter sangue nas veias. São “erros” como deixar meu filho brincar na chuva que tornarão uma tarde qualquer dele inesquecível.

Quero errar muito. Quero que ele coma na casa da avó bolo de chocolate com açúcar refinado e bastante granulado de cobertura. Que ele vá na feira com o pai num domingo de manhã e escolha um pastel pelo seu recheio e não pelo seu valor nutricional.

Que ele acelere a sua bicicletinha, caia, rale o joelho e aprenda a dosar. Que ele aprenda a cair e a levantar, que ele conheça a dor e portanto aprenda com a vida a ter limites.

A vida é isso, tatear. Sentir, experimentar. Aprender.

Parafraseando Guimarães Rosa, não estamos acabados. Não é porque parimos, temos 05 filhos, 60 anos de vida é que seremos mães perfeitas. Enquanto vivermos, até nosso último dia aprenderemos a ser mães, então para quê tanta culpa?

Aprendizado é essencial e necessário para nossa evolução e bem estar familiar. Culpa não. A culpa nos joga para baixo, nos imobiliza. Nos deixa desacreditadas em nós mesmo.

Você precisa disso? Não, né!

Então vamos combinar uma coisa. Daremos férias permanentes para a culpa. A cada momento que ela surgir porque você deixou seu filho dormir sem escovar os dentes a mande embora. Em seu lugar contrataremos o senhor aprendizado que será muito mais útil em nossa vida.

O aprendizado sabe que somos humanas, passíveis de erros. A culpa não.
Deixemos de lado uma companhia tão inquisidora como a culpa nessa estrada maravilhosa e sem volta que é ser mãe. Apenas nós temos o poder de fazer nossa caminhada mais leve, feliz e plena. Nós é que escolhemos nossos parceiros de viagem.

Eu escolhi aprender. E vocês?

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Deixa chorar?

Criar filhos com carinho, com afeto é um dos maiores desafios que a família enfrentará na sociedade atual.

Vivemos sob conceitos que visam apenas a praticidade e bem estar dos pais. Praticidade essa que lhe dará tempo de sobra para poder ver algum programa inútil na televisão, para navegar a esmo na internet ou para poder esquentar sua comida congelada e cheia de químicas que estava no freezer, pronta para ser aquecida no microondas.

É isso.

Desenhos existem para isso. Assim como jogos eletrônicos, qualquer coisa luminosa, colorida e piscante que faça os olhos do seu bebê congelar e te deixar “em paz” por alguns instantes.

Qualquer coisa que te faça voltar a dormir em vida.

E nesse caminho você terá muitas “ajudas”. Muita gente dizendo que bebê fica mal acostumado no colo. Que será uma criança difícil. Que lugar de bebê é no berço, num quarto escuro, longe do calor e carinho dos pais. Que chupeta acalma. Que mamadeira é prática.

E sim, seu marido deve comprar comidas industrializadas, um marmitex quem sabe. Onde já se viu mãe de bebê querer comida fresca e saudável? Não é prático! Suja muito a louça!

Quem vai lavar depois?

Notem. Onde está o bebê nesse vórtice? Em algum álbum virtual de fotografias provando para a sociedade que famílias felizes existem?

O que quero com minhas palavras não é julgar. Se você quer deixar seu filho no berço chorando sem parar para ter tempo de ver algum programa e ser engolida pela publicidade e lembrar o quão imperfeita é –seu corpo não está igual ao da cantora de axé, seu carro não é o melhor- o faça. Eu não faço. Eu crio com amor, mas adianto a todas vocês que escolheram ou escolherão esse caminho. Ele é sem dúvida mais trabalhoso e tão mais recompensador!

Ninguém vai estender a mão de forma efetiva para você no puerpério não imediato. Mesmo que a rede de apoio exista e eu tenho pessoas maravilhosas que me apoiam, todas nós temos nossas atividades.

Portanto a menos que você pague, ninguém virá passar suas roupas. Ninguém oferecerá um prato de comida ou mesmo 20 minutos para carregar seu bebê enquanto toma banho tranquila. Sabem por que? Porque muitos tem seus afazeres, como eu tenho. E outros tantos quando a virem descabelada, com fome dirão com um olhar de satisfação:

PÕE NO BERÇO.
DEIXA CHORAR.
VOCÊ ESTÁ ASSIM PORQUE QUER. É SIMPLES.
SEU FILHO ESTÁ MAL ACOSTUMADO.
EU FUI CRIADA SEM AMOR, APANHEI E ESTOU VIVA.

Captaram? Hoje em dia as pessoas criam sobreviventes. Porque não sentem a aspereza de um novo ambiente, de novas cores, de se expressar sem poder falar e apenas chorar acham que não dói. Por não lembrarem de pequenos abandonos os descredibilizam.

E assim seguem sobrevivendo.

O meu conselho para quem deseja criar seus filhos com amor e de maneira instintiva como eu é:

Se organizem de forma que o pai assuma suas responsabilidades. Assumir responsabilidades não é ajudar, ajudamos quando a responsabilidade não é nossa. Quando o pai assume a responsabilidade de criar, de dar banho, de acolher num eventual choro, de educar as coisas fluem muito melhor. A rede de apoio nesse caso será convocada para ajudar a comer um bolinho com café e a dar muitas risadas.

Outra coisa, ouçam e respeitem a voz do coração. Para quem é sobrevivente é perda de tempo falar sobre a relação de cortisol + choros. As pessoas vivem em sua grande maioria adormecidas. Vão apenas acordar quando estiverem adultas, obesas, fazendo dietas sem conseguirem resultados efetivos. Ai só neste momento quando se sentirem inadequadas para irem a praia ou quando tiverem algum problema de saúde associado a obesidade conhecerão a palavra cortisol.

Explicar sobre o vínculo afetivo que temos quando amamentamos para quem acha prática a mamadeira nos 06 primeiros meses, explicar sobre a confusão de bicos…Nada disso adianta. Porque ninguém vê que o bebê se alimenta de sentimentos também. Que quando ele mama, nosso cheiro fica impregnado. Eles ouvem as batidas de nosso coração. O olhar acalenta.

Logo eu diria: Não percam tempo e nem energias com quem não se abre para o que é invisível aos olhos. Essas pessoas não são ruins, não fazem de propósito. Apenas não estão prontas. Percorreram um caminho totalmente diferente, se formaram de outra forma. São outra terra e como um ato de respeito eu tomei por decisão não colonizar ninguém.

Cada um tem seu viver e seu despertar.

Sempre que meu filho chora eu acolho. Estou descabelada, sem almoçar? Sim. Poderia ter deixado ele no berço chorando? Sim. Mas o que eu ganhei o acalentando?

Ganhei sorrisinhos banguelas inesquecíveis. Olhinhos brilhantes me seguindo. Mãozinhas minúsculas me apertando.

E em todas as vezes que acolhi meu filho, toda sua comunicação tinha um propósito. Ou estava com cólica, ou tinha acabado de sujar a fralda ou queria mais um pouco de colo. E sim, bebês sentem tédio! Todo dia faço a via sacra de mostrar os passarinhos na varanda, as plantinhas e passear no final da tarde. Nunca ele chorou pedindo carrinho ou berço.

Nunca chorou para me manipular, para ser malvado, tipo: Ela vai se ferrar agora, não vai comer também! Tenho dois meses de vida trabalhados na vingança.

Entenderam?

Hoje com ele voltei a ser criança. Sentei no chão, brinquei. Inventei diálogos, usei nossos dedoches, me diverti. Estou leve e meu filho também. Neste exato momento está no quarto dormindo sozinho, SERENO enquanto eu escrevo este texto, fiz meu almoço e agora vou tomar um super banho tranquila.

Um bebê é um presente para despertarmos para a vida. É um amanhecer.

Criar um bebê com afeto é doação pura. Cada vez que ouço meu filho vocalizar an-gu, uuuuuu-daaa com 60 dias de vida agradeço todo meu esforço por não ter cedido a chupeta como calmante. Penso que se ele estivesse com a chupeta eu não teria o privilégio de ouvir esses sons tão cedo.

Tudo o que escrevi não visa de maneira alguma dizer que quem opta por outro estilo de criação ame menos o seu filho ou seja um pai ou mãe piores. Longe disso! Quero apenas mostrar o quão trabalhoso esse caminho que escolhi é e quão recompensador ele pode ser também.

Ganhei vários livros sobre como cuidar de bebês. As coisas mais úteis, os melhores conselhos para mim foram aqueles que o senso comum condena. Foi ouvir a voz do meu coração e seguir meus instintos.

Para você que é gestante, para você que é mãe, se permitam. Sejam como uma tela em branco, não absorvam estórias da prima da vizinha. Se apoiem em evidências e sigam seu coração não importa o que os outros falem, afinal coração de mãe nunca se engana, não é?