Sobre a escolha de sua doula e a desmistificação.

 

Ai você vira e fala :

-Achei minha doula! É ela! Meu amuletinho, mulher forte, leoa, que vai chegar comigo no hospital lacrando geral. Vão olhar pra ela e vão falar:

-Nossa, ela está com a fulana! Geral, bora guardar material de episiotomia! Sem kristeller que ela está com a super doula! Ó, fala pro neo não aspirar e não usar colírio! Meu Deus, já ia esquecendo! Clampear o cordão só depois de parar de pulsar, belê!

E sem bate papo paralelo, a super doula chegou!

Então, só que não. Nada disso vai acontecer, porque sua doula não vai arrancar a saia, o rebozo da bolsa, rasgar a bata no meio e mostrar sua roupa de mulher maravilha, porque ela não é sua super heroína.

Ela é sua doula e sendo assim seu papel não é de enfrentamento. Não é fazer as coisas que lhe cabem como pais. Não é discutir com a equipe e dizer o que podem ou não fazer com seu corpo.

Esse é o papel de vocês pais. Mesmo com o acompanhamento de uma doula que lhe dará apoio informacional, emocional e no manejo do trabalho de parto, certas coisas são vocês que terão de fazer e se posicionar.

Doula seja ela quem for, é sombra dentro de um hospital. Não tem nome e nem sobrenome, é mais uma falha no sistema se intrometendo onde não deve, ao ver deles.

Para você que escolheu sua doula por estas questões subjetivas, meus sentimentos. Ela não vai comprar sua briga, ela não vai operar milagres, ela não vai dizer o que a equipe deve ou não fazer. Este não é seu papel, que fique claro.

Escolha sua doula por afinidade e comprometimento. Essa afinidade vai fazer você se sentir a vontade com ela para expor seus medos mais íntimos. Vai fazer com que você se alegre com sua presença antes e a imagine durante horas e horas com você no trabalho de parto…Nua, urrando, virando do avesso.

O comprometimento dela vai fazer com que você tenha luz em sua caminhada. Com ela você vai aprender sobre a fisiologia do corpo durante um trabalho de parto e suas fases, vai saber mais sobre consciência corporal, exercícios antes e durante, dicas de livros, importância da rede de apoio no puerpério, construção de plano de parto entre outras muitas coisas que as doulas desenvolvem com suas gestantes. Com a minha aprendi a trocar fraldas, a usar o sling.

Com tanto aprendizado, são vocês que terão a palavras final, doulas no processo de parto numa instituição não fala pelo casal, faz a bolha energética e quem vai exigir que seus desejos sejam cumpridos é o casal.

Doula não é amuleto, patuá, bibelô ou acessório do poder.

Entendem porque ao escolher a doula, determinados fatores tão relevantes aqui fora, dentro de uma instituição, em meio a uma equipe se perdem completamente? Sabem por que?

O parto é seu e de mais ninguém. É algo sobre seu corpo, sua consciência e sua autonomia sobre ele.

.E sim, não tem jeito. Você vai ter de sair de sua zona de conforto. Experiência de parto não é comprada, se constrói. Tijolinho por tijolinho, com suas próprias mãos.

 

Desapego e construção da experiência de parto.

Crédito imagens: Monet Nicole Birthing Stories

Vi um vídeo lindo de uma parteira ontem. Amo-a.

Seu olhar, seu tom de voz, sua abordagem e visão sobre o parto me encantam. Fiquei muito emocionada quando a encontrei pessoalmente, ela não sabe, mas sua frase “As mulheres sabem parir, gostam de parir” foi algo que mexeu demais comigo e me motivou em muitos momentos da minha gestação, inclusive no meu parto.

Li um comentário onde uma pessoa afirmava que muitas mulheres saíam de suas cidades, viajavam para outro estado para ter filhos com ela.

Eu entendo. Compreendo. A figura dela no trabalho de parto é realmente forte, sua competência é inquestionável. Sua magia é única, mas mulheres…

Confiem em sua força interior, SEMPRE!

No meu trabalho de preparação mental eu trabalhei muito o desapego e meu resgate ancestral de força individual. Planejei o parto, escolhi por receber meu filho em casa.

Fiz meu altar de força, onde tinha objetos de poder, presente das amigas que recebi no Chá de Bênçãos escolhi o cantinho que a piscina ficaria. Sabia o que queria comer, quem estaria no meu parto. Escolhi a equipe por competência e afinidade energética, porém depositei TODA a força do parir em mim, independente dos elementos que estivessem presentes no meu parto. Antes de estar com meus filho nos braços já sentia o vento do descontrole passar em minha vida.

Meu marido trabalhava em outra cidade. E se não desse tempo dele chegar? E se ele não acompanhasse meu trabalho de parto? E se a filha da minha doula ficasse doente?

Eu não iria parir? Claro que iria! O parto, essa caminhada era minha e do meu filho. Seu corpo e o meu. Internamente eu decidi que nada que acontecesse iria nos atrapalhar, nada iria quebrar nossa conexão e bloquear a minha entrega.

E imprevistos aconteceram? Sim, claro. Eu me abalei? Não, absolutamente! Não romantizei esse momento, não depositei meu ponto de apoio externamente, então nada do que ocorreu atrapalhou, bloqueou ou manchou minha experiência de parto que EU construí.

Querem saber as coisas totalmente inesperadas que aconteceram?

Comecei a sentir contrações mais fortes, daquelas que perder a noção de tempo e espaço. Contava com minha mãe para passar esse primeiro momento. Liguei na casa dela e prontamente ela veio, mas não pode ficar. Por que?

Um vazamento de água no seu banheiro que estava invadindo a fiação do chuveiro acontecia NAQUELE momento. Totalmente inesperado. Ela teve que voltar para sua casa para acompanhar a manutenção. E eu fiquei só. Firme como uma árvore.

Fiquei em meu apartamento sozinha por opção. Poderia chamar as doulas, mas meu desejo era passar esse momento sozinha e assim se deu. Fiquei no meu quarto, recolhida, com meus gatinhos até meu marido chegar as 19:30 porque eu não tive como ligar para ele sair mais cedo do trabalho e vir acompanhar o trabalho de parto.

E tudo bem também!

A piscina foi enchida por ele quase em sua totalidade com água fria. Com um balde ele aproveitava o que saia do chuveiro grande, mas com isso não deu margem para a água estar aquecida quando eu quisesse entrar. Meu pai veio em casa e sugeriu que ele deixasse no modo frio para economia de energia. Ele acatou.

Meu filho não nasceria na manhã seguinte. Meu trabalho de parto foi rápido, eu sentia meu corpo abrir e precisa muito entrar na piscina, estava no meu limiar de dor suportável. Quando entrei a água estava fria e a piscina cheia. Foi preciso em trabalho grande das queridas doulas para esvaziar a piscina e completar com água quente.

Foram muitas panelas de água fervente no fogão e eu na piscina, me esquivando da água quente que caia e fugindo dos baldes que retiravam a água fria da piscina.

Eu esperava que fosse assim? Não.

Isso cortou minha conexão? Não.

Foi aprendizado para todos e para mim. Minha ligação interna era tão grande, que o mundo lá fora era apenas detalhe. Não havia romantizações em minha mente. Não havia não parir por causa da louça na pia. Eu ia parir, aconteça o que for. E lutaria com todas as minhas forças para ser em casa, meu único objetivo era começar e terminar em casa.

Em dado momento a piscina furou, o terceiro nível. Uma tragédia para a Vanessa fora de trabalho de parto, imaginem um piso de madeira (tacos) sendo banhado por toda aquela água! Furou por conta da resistência que tentava manter a água aquecida, mas que não rolou, ela encostou na borda quando eu entrei.

E ai? Vou chorar? Meu filho não iria nascer na piscina, ficou claro naquele momento. Eu não tinha apoio, se encostasse na borda a água invadiria todo o apartamento. Mais correria pra tirar água da piscina!

Eu planejei um parto na água por 09 meses. Meu plano de parto tinha todo o meu desejo de parir na água…Queria que meu filho viesse ao mundo da água para a água. Sabia e senti na pele que a piscina era uma poderosa arma de alívio contra as dores que eu sentia.

Mas meu filho tinha de nascer, ser recebido com alegria e eu sou guerreira. Se a piscina não rola, ele virá de outra forma, e assim se deu . Veio comigo na banqueta.

Fiquei na piscina o quanto deu, a lembrança mais amorosa que tenho foi da parteira jogando jarras e jarras de água morninha em minha barriga, foco de minha dor.

Quando os puxos vieram sai da piscina e fui pra banqueta e rapidamente meu filho nasceu. Eu venci! Estava com ele em meus braços, morno, escorregadio. Perfeito.

Nada mais importava.

Não tive que trabalhar questões menores. Não me importei em ficar sozinha na fase latente, em ter meu marido comigo no começo da noite ou na piscina fria/furada.

Eu estava com meu filho nos braços. O todo foi incrível. Tive todo o apoio que precisava e eu não esperava. Muitas horas de massagem, comidinha na boca, casa limpa no pós parto, equipe super competente , profissional e amorosa.

Tudo aconteceu da forma que tinha de ser, as coisas são o que são, a força está dentro de nós.

Então se você chegou até o final desse texto reflita e reveja suas expectativas, prioridades e apegos no trabalho de parto. Planeje o grosso, os detalhes, mas não se apegue. As coisas vão acontecer da forma que tem de ser e não necessariamente da maneira que planejamos.

Se sua vontade é estar com a parteira A ou a doula B, ok. É legítimo seu desejo, porém se conscientize de que você vai passar por todo esse processo com ou sem elas. Construa a SUA experiência de parto.

Lidamos com variáveis humanas. Alguém da sua equipe pode adoecer. Seu trabalho de parto pode ser extremamente longo e talvez a doula tenha de revezar a presença com sua parceira. Talvez você ache que vai parir como uma divindade e seu parto seja animal.

Eu não vomito. Odeio vomitar. E depois de anos vomitei seis vezes no trabalho de parto e tudo bem. Não vou me culpar. Eu estava parindo e tudo aconteceu como tinha de ser.

Quando não nutrimos expectativas exageradas e algumas vezes até irreais não nos frustramos. Não culpabilizamos ninguém e saímos leves do parto, sem maiores questões a serem tratadas. E reconhecemos na eventualidade cada gesto de carinho com extremo apreço e gratidão.

A força interior te dá liberdade de parir seus filhos como deve ser, sem figuras externas servindo como ponto de apoio.

A força é de vocês e está dentro de vocês, sempre!

Doulas se resumem a um aperto de mão?

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Sabem porque muitos dizem que as doulas só dão as mãos no trabalho de parto?

Por desconhecerem nosso trabalho. Mas atrás do nosso aperto de mão existe uma preparação intensa durante a gestação.

Doulas se doam integralmente na gestação, se fundindo, sendo apoio emocional durante os 09 meses de gestação.

Levam informações atualizadas a respeito da fisiologia do parto, instituições, exercícios. Você descobre um poder imenso dentro de si até então desconhecido.

Doulas ficam nos bastidores. Preparam o palco todo esse tempo para que VOCÊ mulher protagonize a cena na hora do SEU parto.

Quem pensa que a doula é uma figura necessária apenas no trabalho de parto está enganada!

O que você sabe sobre o acompanhamento de uma doula?

O acompanhamento é feito em três partes distintas que se unificam quando o contrato é fechado. Essas partes são o acompanhamento pré, durante e pós parto.

Três perguntas e respostas sobre esse atendimento podem trazer muita luz para gestantes que optam ou não por ter uma doula durante a gestação.

  • Como uma doula pode me auxiliar na gestação? Minha amiga ou mãe pode substituir seu apoio?

Familiares e amigos podem substituir a figura da doula no sentido afetivo e de acolhida, se todos esses elementos estiverem de acordo com suas decisões e com informações atualizadas.

Se todos esses pontos não estiverem alinhados, a boa vontade de “ajudar” pode ser um tiro no pé. Aos invés de estimularem a mulher a protagonizar este momento podem desestimulá-la com estórias da “prima da vizinha” e com indicação de profissionais não humanizados.

  • Qual é a bagagem e formação da doula para me auxiliarem nessa tomada por informações?

A doula é uma profissional que tem acesso a informações diversas. Doulas são capacitadas em cursos onde aprendem os aspectos técnicos, práticos e psicológicos para atender uma mulher e sua família.

Ela pode indicar profissionais humanizados, partilhar experiências diversas sobre instituições hospitalares e te acolher emocionalmente quando bate aquela insegurança ou mesmo para celebrar bons momentos. Ela não vai se incomodar em falar com você sobre gestação e parto, porque essa é sua profissão.

Diferente da sua conhecida que fica arrepiada quando você começa a falar de gravidez, enjôos e dúvidas.

As pessoas estão em outro momentos, envolvidas em outros assuntos. A doula gesta com você.

  • De que forma prática ela pode me auxiliar em questões diversas?

A doula sempre informada vai saber te indicar os melhores livros para leitura. E sendo você doulada tem a oportunidade de ter acessos a livros emprestados pela própria doula!

Você vai ter segurança na hora de compor seu enxoval, vai fazer de maneira inteligente e sustentável sem ser tratada de maneira infantilizada e sofrendo a sobrecarga de elementos desnecessários.

Ela vai te passar dicas de exercícios de alívio para o corpo em geral, exercícios para o assoalho pélvico. Vai apoiar a amamentação e se for capacitada como consultora vai avaliar aquela super dificuldade de pega fazendo com que este momento desafiante se torne prazeroso sem que você recorra unicamente a bicos e leite artificiais.

Esse texto não tem o objetivo de questionar o seu parir. Sim ele é fisiológico, mas é importante frisar que ele começa na mente também. Uma mente segura, empoderada tem um caminho muito mais suave para ser percorrido. A entrega fica muito mais fácil, porque parto é entrega, descontrole.

A dor existe e é real. Meu filho nasceu em casa, 06 horas de trabalho de parto super intensos. Eu não subestimei a dor mas me surpreendi com ela. Sem dúvida foi a dor mais forte que senti na vida.

E o trabalho mental, o apoio das minhas doulas durante a gestação foram fundamentais naquele momento que eu me conectava comigo. E dentro de mim havia um lindo e forte jardim, que foi plantado por essas mulheres guerreiras e cultivados por mim.

E naqueles momentos desesperadores eu acessei esse jardim. E lá dentro dele não encontrei estórias terríveis, lendas obstétricas. Encontrei apoio, relatos de mulheres que atravessaram esse caminho. Encontrei vozes que sempre me apoiavam e que não me prometiam nada, mas me diziam que sim, é possível parir.

E você? Ainda tem dúvida sobre o papel da doula durante a gestação?

Você e ela juntas vão cultivar um jardim de força que será acessado por você no momento mais importante de sua vida.

Porque protagonizar o parto é isso. Não é apenas parir de cócoras, ouvir sua música predileta. Protagonizar esse momento é assumir a sua gestação e valorizar cada elemento da equipe que fará parte de seu grande dia. Que estará ao seu lado quando atravessar seu portal de cura e depois dele.

Despertem consciencialmente para o seu parto e para a vida!

 

Por que ter uma doula se tenho meu marido?

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Doula não levita, não é mágica. Doula se alimenta, sente cansaço, dores. Doula tem casa, tem filho ou não.  Doula se atualiza constantemente, doula viaja.  Doula gosta de cheirinho de recém nascido, doula sai no meio madrugada para estar com você no momento mais precioso de sua vida.

Por isso você -mulher que não pariu ainda- pode achar que não precisa de uma doula. Que seu marido, sua irmã, sua mãe, sua tia podem te doular.

Mas ninguém te conta que doula é um copo vazio em sua vida. Um presente, uma irmã. Uma página em branco, uma chance de ter as melhores memórias em sua vida. Sem contaminantes.

É essa pessoa que vai te acolher quando a insegurança bater e seu marido não der conta. É ela que vai te orientar sobre o inicio do trabalho de parto e não sua irmã que não pariu e desconhece totalmente os sinais de um trabalho de parto.

É ela quem vai saber onde estão suas roupas e as do seu filho na hora de irem para um hospital. Não é sua tia que passou sua gestação toda imersa em suas ocupações.

Ela vai trazer para você informações atualizadas, porque diferente da sua prima que é advogada e não entende nada sobre pega correta, assoalho pélvico, indicações reais de cesárea, a doula, aquele ser tão dispensável neste primeiro momento se atualizou. Foi a cursos, leu muitos livros, acompanhou todas as novidades. Organiza rodas, grupos, palestras.

É quem no trabalho de parto que você atravessa não vai se assustar. Vai reconhecer cada fase e vai saber como agir. Hora de falar, hora de calar, hora de tocar. É a compreensão, olhos de amor.

Doulas podem ter tido partos lindos e desejar que o seu seja tão ou mais transformador que o dela. Podem ter tido partos violentos, sofridos e escolheram esse caminho para que o seu que está gestando e não tem a menor idéia de como o sistema obstétrico funciona, tenha um parto respeitoso e amoroso.

Doulas podem ter curso superior. Antes de estarem com você em seu parto oferecendo alimentação, água, limpando sua sala, quarto, te abraçando, acreditando em você quando você mesmo duvida ela esteve numa empresa. Ocupando cargos importantes, mas diferente do seu marido, sua tia, sua prima ou sua irmã ela mudou a rota do seu viver.

Se tornou doula.

Entende porque comparar uma doula com o apoio que o marido, irmã, mãe, tia ou prima podem dar é um equívoco?

Ter uma doula junto de si na gestação, parto e pós parto não é passe livre para a exclusão. Tenha os dois, os três, quem você quiser. O parto é seu, seu protagonismo.

Eu tive duas doulas, marido, gatos. E todos são como chamas de velas, acendem outras infinitas velas sem que a chama se apague.

Uma doula em sua companhia não vai anular a força de ter seu companheiro, pelo contrário! Serão um exército ao seu redor, vibrando para seu parir e renascimento.

Valorizar e reconhecer a importância de uma doula ao seu lado é um ato de respeito e amor.

E não é tudo isso que você busca em sua gestação?

Não use a palavra DOULA. Desista.

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Se você pensa em usar o nome doula para promover uma modalidade de trabalho  descomprometida com a humanização do parto, desista.

Você não é doula. Procure outras palavras: Acompanhante, cuidadora. Invente! Personal pregnant! Partner, gourmetize qualquer outra palavra, mas não use a palavra doula. Não trabalhe e se identifique como doula. Não procure distorcer o trabalho da verdadeira doula ou tente dar outro sentindo ao que ela já possui.

Se você pretende trabalhar de maneira que não seja pactuada com a intenção de humanizar o momento do parto, respeitar o protagonismo da mulher e fazê-la soberana diante de sua vontade de parir, desista. Faça o que quiser mas não use a palavra doula.

Se você deseja trabalhar de maneira a priorizar instituições e políticas pessoais partidárias, desista.  Não use a palavra doula.

Se você enxerga a mulher que gera como um cifrão, uma presa fácil, um ser vulnerável que quer apenas sentar em círculo em cima de um colchonete e participar de um chá com sorteios no final de uma tarde amena, por favor use outra palavra para identificar suas atividades. Faça o que quiser, o que sua ética guiar, mas não use a palavra doula.

Doulas são servas. Dão apoio físico e emocional antes, durante e após o parto. E parir é bicho feio no Brasil. Parir com respeito então! Raridade.

Quem quer parir precisa lutar e doulas são ponta de lança nesse processo de luta, da humanização do nascimento.

Doulas não são aproveitadoras que enxergam nesse desejo um segmento propício apenas para ganhar dinheiro. Por que são doulas. A isso damos o nome de oportunistas.

Essas sim se apropriam, fazem usos e abusos desse nome. O utilizam, se identificam, pegam o bonde da humanização e querem andar na janelinha sem estarem vinculadas com os pilares que sustentam esse movimento.

Se você tem esse lema consigo, tudo bem.  Venha como um trator arar o solo sensível das fêmeas que desejam parir. Venha com sua imensidão e comercialização de eventos. Seja a megastore da humanização.

Chegue desapropriando as mercearias e se estabeleça como um grande hipermercado do nascimento de bebês. Suas luzes brancas e frias e seus corredores imensos e sem fim mostrarão o objetivo a que vieram.

E depois de um tempo ficará claro que as pequenas vendas, os cafés de uma porta só, as mercearias continuarão de pé porque tem consistência. Tem consciência. Tem ativismo, seja no megafone, seja nos postos de saúde, seja em palavras ditas ou escritas. Tem coerência. Tem estatísticas.

As fêmeas que querem parir têm astúcia. Faro aguçado, instinto a flor da pele. A luz branca de seus corredores vai incomodar porque elas querem delicadeza ao terem a terra de seus corações aradas.

Querem olhos nos olhos, abraço. Aconchego. Discurso e prática. Sua sombra tem 04 patas é selvagem e seu uso e abuso de práticas não sedimentadas com a humanização, mesmo usando o nome de um elemento que existe apenas nele ficarão claros.

Então desista. Faça o que quiser, mas não use o nome doula.

Doula não é um chaveiro caro que você pendura numa bolsa. Doula é luta. Doula não é perfumaria. Se você quer um plus a mais para o nascer do seu filho, para falar para as amigas, procure uma acompanhante e não uma doula. Porque doulas tem outra função, outro objetivo, outro cenário.

Ficou claro qual o objetivo de uma doula?

Se ficou e você é uma doula de verdade, insista. Senão, por favor. Desista.

Vamos falar sobre humanização.

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Como doula sou um elemento ativo da humanização do parto. E parto humanizado não é ter piscina, velas, incenso e música.

Humanizar o parto é dar qualidade de assistência. Basear-se em evidências, respeitar o protagonismo da mulher.

Em palavras mais cortantes seria fazer o natural, que é tratar seu semelhante de maneira digna e respeitosa.

Humanização existe em várias áreas, não apenas na assistência ao parto. Ouvi essa palavra pela primeira vez nas aulas de Ética há dez anos. E me pareceu tão óbvio…

Não se referir ao paciente pelo número de seu quarto ou leito. Não expor seu corpo desnecessariamente, sempre explicar qual procedimento será realizado. Chamá-lo pelo nome, não manter conversas paralelas durante atendimentos, enfim, tratá-lo como HUMANO dotado de vontades e sentimentos e não como uma patologia.

João é João e não o quarto B da perna fraturada

E pra humanizar a assistência não é necessário cursos, diplomas. Anos de experiência. Quem se apoia nesses pilares usa a humanização para dar “carteirada”.

Humanizar um atendimento é mudar práticas que impactam diretamente na gestão por isso é tão difícil hoje termos um atendimento humanizado na saúde pública.

Por outro lado, se formos olhar de perto, individualmente podemos contribuir para atendimentos humanizados, sendo éticos, privilegiando o humano em toda a sua totalidade.

Aqui no Centro de Saúde do meu bairro tem uma funcionária excepcional, Jaqueline. Ela se refere a mim pelo meu nome. Me ouve, pratica a enfermagem com amor. Pede licença ao meu filho quando vai vaciná-lo, é cuidadosa.

Qual a diferença dela? Ela sozinha, um cisquinho no meio do sistema e é humanizada. Talvez nem se dê conta disso. Seu grito de guerra, sua luta é no dia-a-dia. Sozinha ali, fazendo a diferença. Uma estrela num céu desconhecido.

Que fique claro, práticas humanizadas não se sustentam em nomes estrelados, tempo de estrada, cursos e diplomas. É uma questão de ética e extrema convicção pessoal.

Existem aqueles que veem no nicho da humanização uma oportunidade? Sim, existem. São aqueles que ficam em cima do muro, com práticas obtusas e discursos desconexos.

O diferencial é que esse comportamento contraditório não se sustenta ao longo do tempo, independente do apoio que exista.

Se você profissional se questionar e optar pelo caminho da humanização de maneira sincera, o tempo irá provar o quão verdadeiro seu engajamento é. No começo poderá encontrar resistência. Pode até mesmo ser acusado de aproveitador e de estar usando a luta por um parir respeitoso para se promover.

E quem vai provar o contrário? O tempo meu caro. E suas práticas que não devem se corromper.

O joio é filtrado do trigo.

Deu pra notar que fazer o bem não é tão simples quanto parece, não é mesmo?

É duro. É difícil. Você pode encontrar resistências não óbvias, mas lembrem-se: Para fazer o bem você não precisa da benção de ninguém. Não precisa de apadrinhamento. Não precisa de anos de bagagem.

Precisa apenas… Fazer o bem! Com ética, respeito e amor.

Doula: O que ela faz?

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Existem vários textos sobre doulas, porém como doula me sinto no dever de escrever sobre a ocupação partindo do meu próprio prisma.

Um bom começo é saber o que a doula faz. Vocês sabem?

“Antes do parto ela orienta o casal sobre o que esperar do parto e pós-parto. Explica os procedimentos comuns e ajuda a mulher a se preparar, física e emocionalmente para o parto, das mais variadas formas.

Durante o parto a doula atenua a eventual frieza da equipe de atendimento num dos momentos mais vulneráveis de sua vida. Ela ajuda a parturiente a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto e parto, mostra formas eficientes de respiração e propõe medidas naturais que podem aliviar as dores, como banhos, massagens, relaxamento.

Após o parto ela faz visitas à nova família, oferecendo apoio para o período de pós-parto, especialmente em relação à amamentação e cuidados com o bebê.”

Essa é uma das descrições mais objetivas e está no site Doulas do Brasil. Usando meu prisma, a doula é uma luz no caminho que você gestante está trilhando.

O parto é seu, o protagonismo é seu mas quem te servirá amorosamente neste processo é uma doula.

Antes do parto é a doula que vai acompanhar sua elaboração de plano de parto, porque quem o fará é você. Plano de parto é individual e tudo o que está ai em sua mente vai para o papel.

Por exemplo: Não desejar ser submetida a uma episiotomia, ter o direito de poder dar banho em seu filho, entre outros que você quiser. Tudo isso vai para o papel de forma amorosa e respeitosa e será encaminhado a um hospital ou se for parto domiciliar á equipe que te assistirá.

Não é demais?

Imagine você grávida, cheia de trabalho, sem saber por onde começar. Sem saber o que é um plano de parto, sem ter noção de sua importância. Suas referencias são partos de mulheres com filhos crescidos que não estão atualizadas. Pois é, neste momento a doula oferecerá todo o apoio que você necessitará.

Durante o parto ela será aquela mão doce, amorosa que vai te acolher. Pelos olhos vocês irão se comunicar. Quando você achar que não vai conseguir chegar no topo da montanha ela estará ali ao seu lado mostrando o quanto você é forte.

Doulas reduzem a taxas de cesáreas. Doulas abraçam, massageiam, orientam, acolhem. Serão o suporte para o momento mais especial de suas vidas.

Doulas são a dose extra de amor que toda gestante merece.