Por que a maternidade ideal não funciona para você?

 

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Se eu pudesse dar um conselho as mães de primeira viagem eu diria:

-Maternidade não é receitinha de bolo, questione, se adapte, use seu senso crítico e trilhe o caminho que for melhor para vocês.

Meu “modelo” de maternidade ideal tem sido posto a prova diariamente.

Por que para mim, se gera culpa e sobrecarga não está funcionando. Quando era gestante li milhares de coisas, vi vídeos lindos, chorei e prometi para mim mesma que seria a mãe maravilha.

Muita coisa, o grosso deu certo. Meu filho come super bem, fizemos a introdução alimentar pelo método BLW e foi a melhor decisão que tomei até hoje. Deu um trabalhão, deu frio na barriga morrer engasgado, de não ganhar peso, mas com informação e apoio de outras mães que adotaram este método deu pra chegar lá.

Meu filho não tem acesso a eletrônicos. Não assiste televisão, não sabe quem é Galinha Pintadinha…Hábitos. Não ligamos a televisão em casa porque ouvimos música na maior parte do tempo e ele não sente falta do que não teve.

Não sabe o que é tablet, não brinca com celular. Legal, conseguimos!

Mas o que eu queria que era que ele fosse para a escola com 04 anos não será possível. Não consigo oferecer todas as refeições com excelência para ele todos os dias. Tem jantar que faço lanchinhos, tem dia que comemos fora em locais saudáveis, mas muitas vezes essa quantidade passa de uma vez por semana.

Meu fluxo menstrual é intenso, uso DIU o que piora tudo. Nesses dias me recolho e é lei…E nesse período não consigo espremer laranjas em todas as refeições, cozinhar beterraba e picar cenouras em sucos naturais. Gostaria, mas não dá, é ultrapassar meus limites físicos.

E ai como faz? Sou uma mãe imprestável que não serve para sequer fazer um suco saudável pro filho?

A verdade é que a demanda com os filhos aumenta a cada dia. Entendam por demanda:

  • Crianças começarem a andar. Você vai passar o dia atrás dela, com a atenção no máximo lutando para salvar o mundo. Vai deitar e sequer vai se lembrar de seu nome, tamanho o esgotamento mental e físico.
  • Crianças querendo brincar. Com você. Em você. Vai ter puxão de cabelo, mãozinha dentro do olho, mouse roubado. Vai ter gavetas esvaziadas, potes de ração virados, papel picado, livro arremessado.
  • Passar roupa? Hahaha! Preciso falar que é impossível passar roupa com uma criança que se agarra em suas pernas, balança a mesa e puxa o fio do ferro?
  • Cozinhar? Só se for com uma cadeirinha ao lado. Se não for assim, a criança VAI abrir todas as gavetas e esvaziar. E vai se interessar justamente por aquela tesoura e aquela faca perdida.
  • Ftuteiras? Uma ótima atividade sensorial, vai tudo pro chão. Esses dias encontrei uma batata no meio dos brinquedos do meu filho.

E some a isso choro, atenção, colo e para quem amamenta como eu, sessões longas de tetê.

Entenderam a questão da demanda? Deu para visualizar? É difícil e o incrível é que muitas pessoas, mesmo familiares próximos, mesmo marido, só entendem quando vivenciam.

E a gente não sai dando chinelada, prendendo criança não. A gente abaixa, explica, entende o momento dela de explorar e conhecer o mundo.

Falando sobre culpa, vejo que a materna cai sempre sobre os cuidados que nós MÃES dispensamos aos nossos filhos e nunca no cuidado que entregamos para nós.

Passamos meses sem fazer nada por nós. Meses achando que fazer unha e cabelo é o máximo do cuidado.

A gente vai perdendo a consciência corporal…Esquecemos de sentir nosso corpo sem ser para servir e alimentar. Esses dias viajamos e foi tão bom tomar banho sem interrupção, sem saber que quando eu saísse teria um bilhão de coisas para fazer.

Fechei os olhos e senti minha pele, meus cabelos, deixei a água quentinha cair preguiçosa nas minhas costas. Na piscina me senti solta, meus músculos livres. O sol aquecendo a pele, o corpo esticado, a alma leve.

Na correria a gente sente falta do toque, da mão no rosto, do abraço demorado. Precisamos de aconchego, precisamos de acolhida e precisamos de tudo isso antes de chegarmos no nosso limite de esgotamento mental e físico.

E cadê a culpa por pularmos essa “fase” do jogo? Cadê a culpa por não termos tempo para desenvolvermos outras atividades para nós mesmas?

Artesanato para mim era um hobby maravilhoso. Gosto de atividades manuais, fiz aula de pintura, de flauta transversal…Adorava restaurar peças. Minha casa tem muito das minhas mãos e cada caixote que fiz, cada janelão que transformei, ganhei um tantão de paz.

Hoje não dá pra fazer, não dá pra pregar um botão!

E as receitinhas de maternidade ideal só focam no filho, no desenvolvimento do filho e não na saúde psíquica, espiritual e física da mãe que também é gente!

Então minhas amigas, minha maternidade quem faz sou eu. Se eu estiver esgotada ao final do dia pode ter certeza que meu filho vai comer um lanchinho feito com muito amor e vai dormir em paz, e eu também.

As demandas domésticas não param e quem não põe a mão na massa, quem teve empregada a vida inteira, quem come fora, quem pede comida todo dia, quem tem diarista, quem tem alguém para passar roupa não vai entender nem de perto o sacrifício que é manter uma casa funcionando.

E nem falo de vidros brilhantes e paredes impecáveis, falo do grosso. Roupa lavada e comida na mesa. É muito pesado.

 “Ah…Vida de mãe é assim mesmo!”

Não é assim mesmo! Vida de mãe não é virar sombra do filho, não é virar uma máquina executora de tarefas, não é não poder ficar doente. Vida de mãe é vida de gente, com necessidades e desejos.

O meu convite a todas as mulheres é que elas usem sua autonomia de vida, seu senso crítico e olhem para si com mais carinho e cuidado e por favor, não se culpem tanto.

O mundo ideal existe apenas na nossa mente, o que fazemos na vida de verdade é atravessar a corda bamba com dois pratos torcendo para nenhum quebrar.

Que façamos essa travessia difícil de maneira mais leve e livre de culpa e cobranças.

P.S: A maternidade ideal não vai funcionar para você, simplesmente por que ela não existe no mundo real.

Bebê não faz manha. Você é que tem medo.

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Bebê que chora não é manhoso. Bebê que chora age por instinto e está se comunicando com você.

Pelo choro.

Em pleno 2015 vejo muitas pessoas insistirem na tese de que “bebê que chora é manhoso” e mesmo eu explicando que bebês não choram com o intuito de manipular adultos pois não possuem capacidade para elaborar raciocínio (vou chorar pra ela aprender) pois não entendem a relação causa e efeito, muitos decidem com si mesmos não darem ouvido ao que a ciência fala e encaram todo e qualquer choro como manha.

E não acolhem. Deixam chorar.

Me ponho a pensar…Será este comportamento é apenas a reprodução de conceitos ultrapassados?

Não, não é. E vou dizer o motivo.

Quando um bebê chora ele te chama a ação. E a ação é basicamente afetiva. Ele não quer um iate, um sapato caro ou um colar de brilhantes. Sim, no choro que é seu único meio de comunicação além de pedir “troque minha fralda” ou “estou com calor ou frio”, “estou com fome ou dor” ele sinaliza necessidade de afeto.

O choro que corta a alma muitas vezes quer apenas seu colo. Se calor, seu amor. Quer que seu corpo expresse sentimentos de acolhida. Que você o proteja, o embale, dê atenção.

Muitas pessoas por diversos motivos tem enormes barreiras afetivas em si que se refletem tanto na doação quanto na hora de receber afeto. Dai vem a imensa dificuldade de acolher um choro sem se irritar, sem se sentir manipulada.

O choro convida a gritos as pessoas darem o que elas tem dificuldade de expressar, que é a afetividade. E quando isso acontece, o mecanismo interno de proteção é acionado e o velho lema de “bebês choram por manha” vira apoio.

E não importa o quanto você explique cientificamente que não é, a muralha existe e se sustenta na manha. A manha dá passe livre para você “educar” e não acolher seu filho neste momento que ele mais precisa de você.

Além disso identificar o motivo de um choro requer vínculo. E vínculo não é parir. Vínculo pode ser estabelecido com pessoas inclusive fora da família. Quantos bebês se vinculam a babás? E o vínculo marital? Eu e meu marido conversamos pelo olhar, arrisco dizer que até por pensamento. Não precisamos de palavras para nos comunicarmos.

Com o bebê a vinculação é até mais forte, chega a ser uma questão de sobrevivência. Quando ela por algum motivo não ocorre, por motivos emocionais inclusive, fica muito difícil identificar a fonte do choro, porque faltou esse aprendizado de leitura. Choro é sentimento. Em cada decibel.

Eu consigo identificar cada choro do meu filho. Sono, fome, cansaço, tédio, cólica. Quando quer mais tempo de chamego. Se quer brincar, mudar de posição. Cada chorinho tem um motivo e nenhum até o momento é por manha.

Mas para identificar isso a ponte teve que ser construída e a matéria-prima é o afeto. Quando temos essa questão afetiva resolvida dentro de nós, as relações humanas não nos amedrontam. Sabemos amar, nos entregar. Não temos medo de nos cortar ou nos decepcionar com relações, porque somos amor e nos refazemos.

Não temos medo de ser feitos de bobos, de entregarmos nosso carinho de bandeja. Não tememos criar maus elementos manhosos que nos maltratarão no futuro e que portanto merecem nossa desconfiança no presente, porque sabemos que o afeto requer entrega, tem sede do presente.

Vejo agora que se refugiar no velho saber de que “bebês são manipuladores” é uma expressão profunda de medo. Medo de amar, medo de se entregar, medo de se machucar.

Não deixe o choro do bebê te paralisar. Bebês não fazem manha. Bebês se comunicam pelo choro.

Lembre-se disso, acolha seu bebê. Feche os olhos e abra seus braços e coração.