Desapego e construção da experiência de parto.

Crédito imagens: Monet Nicole Birthing Stories

Vi um vídeo lindo de uma parteira ontem. Amo-a.

Seu olhar, seu tom de voz, sua abordagem e visão sobre o parto me encantam. Fiquei muito emocionada quando a encontrei pessoalmente, ela não sabe, mas sua frase “As mulheres sabem parir, gostam de parir” foi algo que mexeu demais comigo e me motivou em muitos momentos da minha gestação, inclusive no meu parto.

Li um comentário onde uma pessoa afirmava que muitas mulheres saíam de suas cidades, viajavam para outro estado para ter filhos com ela.

Eu entendo. Compreendo. A figura dela no trabalho de parto é realmente forte, sua competência é inquestionável. Sua magia é única, mas mulheres…

Confiem em sua força interior, SEMPRE!

No meu trabalho de preparação mental eu trabalhei muito o desapego e meu resgate ancestral de força individual. Planejei o parto, escolhi por receber meu filho em casa.

Fiz meu altar de força, onde tinha objetos de poder, presente das amigas que recebi no Chá de Bênçãos escolhi o cantinho que a piscina ficaria. Sabia o que queria comer, quem estaria no meu parto. Escolhi a equipe por competência e afinidade energética, porém depositei TODA a força do parir em mim, independente dos elementos que estivessem presentes no meu parto. Antes de estar com meus filho nos braços já sentia o vento do descontrole passar em minha vida.

Meu marido trabalhava em outra cidade. E se não desse tempo dele chegar? E se ele não acompanhasse meu trabalho de parto? E se a filha da minha doula ficasse doente?

Eu não iria parir? Claro que iria! O parto, essa caminhada era minha e do meu filho. Seu corpo e o meu. Internamente eu decidi que nada que acontecesse iria nos atrapalhar, nada iria quebrar nossa conexão e bloquear a minha entrega.

E imprevistos aconteceram? Sim, claro. Eu me abalei? Não, absolutamente! Não romantizei esse momento, não depositei meu ponto de apoio externamente, então nada do que ocorreu atrapalhou, bloqueou ou manchou minha experiência de parto que EU construí.

Querem saber as coisas totalmente inesperadas que aconteceram?

Comecei a sentir contrações mais fortes, daquelas que perder a noção de tempo e espaço. Contava com minha mãe para passar esse primeiro momento. Liguei na casa dela e prontamente ela veio, mas não pode ficar. Por que?

Um vazamento de água no seu banheiro que estava invadindo a fiação do chuveiro acontecia NAQUELE momento. Totalmente inesperado. Ela teve que voltar para sua casa para acompanhar a manutenção. E eu fiquei só. Firme como uma árvore.

Fiquei em meu apartamento sozinha por opção. Poderia chamar as doulas, mas meu desejo era passar esse momento sozinha e assim se deu. Fiquei no meu quarto, recolhida, com meus gatinhos até meu marido chegar as 19:30 porque eu não tive como ligar para ele sair mais cedo do trabalho e vir acompanhar o trabalho de parto.

E tudo bem também!

A piscina foi enchida por ele quase em sua totalidade com água fria. Com um balde ele aproveitava o que saia do chuveiro grande, mas com isso não deu margem para a água estar aquecida quando eu quisesse entrar. Meu pai veio em casa e sugeriu que ele deixasse no modo frio para economia de energia. Ele acatou.

Meu filho não nasceria na manhã seguinte. Meu trabalho de parto foi rápido, eu sentia meu corpo abrir e precisa muito entrar na piscina, estava no meu limiar de dor suportável. Quando entrei a água estava fria e a piscina cheia. Foi preciso em trabalho grande das queridas doulas para esvaziar a piscina e completar com água quente.

Foram muitas panelas de água fervente no fogão e eu na piscina, me esquivando da água quente que caia e fugindo dos baldes que retiravam a água fria da piscina.

Eu esperava que fosse assim? Não.

Isso cortou minha conexão? Não.

Foi aprendizado para todos e para mim. Minha ligação interna era tão grande, que o mundo lá fora era apenas detalhe. Não havia romantizações em minha mente. Não havia não parir por causa da louça na pia. Eu ia parir, aconteça o que for. E lutaria com todas as minhas forças para ser em casa, meu único objetivo era começar e terminar em casa.

Em dado momento a piscina furou, o terceiro nível. Uma tragédia para a Vanessa fora de trabalho de parto, imaginem um piso de madeira (tacos) sendo banhado por toda aquela água! Furou por conta da resistência que tentava manter a água aquecida, mas que não rolou, ela encostou na borda quando eu entrei.

E ai? Vou chorar? Meu filho não iria nascer na piscina, ficou claro naquele momento. Eu não tinha apoio, se encostasse na borda a água invadiria todo o apartamento. Mais correria pra tirar água da piscina!

Eu planejei um parto na água por 09 meses. Meu plano de parto tinha todo o meu desejo de parir na água…Queria que meu filho viesse ao mundo da água para a água. Sabia e senti na pele que a piscina era uma poderosa arma de alívio contra as dores que eu sentia.

Mas meu filho tinha de nascer, ser recebido com alegria e eu sou guerreira. Se a piscina não rola, ele virá de outra forma, e assim se deu . Veio comigo na banqueta.

Fiquei na piscina o quanto deu, a lembrança mais amorosa que tenho foi da parteira jogando jarras e jarras de água morninha em minha barriga, foco de minha dor.

Quando os puxos vieram sai da piscina e fui pra banqueta e rapidamente meu filho nasceu. Eu venci! Estava com ele em meus braços, morno, escorregadio. Perfeito.

Nada mais importava.

Não tive que trabalhar questões menores. Não me importei em ficar sozinha na fase latente, em ter meu marido comigo no começo da noite ou na piscina fria/furada.

Eu estava com meu filho nos braços. O todo foi incrível. Tive todo o apoio que precisava e eu não esperava. Muitas horas de massagem, comidinha na boca, casa limpa no pós parto, equipe super competente , profissional e amorosa.

Tudo aconteceu da forma que tinha de ser, as coisas são o que são, a força está dentro de nós.

Então se você chegou até o final desse texto reflita e reveja suas expectativas, prioridades e apegos no trabalho de parto. Planeje o grosso, os detalhes, mas não se apegue. As coisas vão acontecer da forma que tem de ser e não necessariamente da maneira que planejamos.

Se sua vontade é estar com a parteira A ou a doula B, ok. É legítimo seu desejo, porém se conscientize de que você vai passar por todo esse processo com ou sem elas. Construa a SUA experiência de parto.

Lidamos com variáveis humanas. Alguém da sua equipe pode adoecer. Seu trabalho de parto pode ser extremamente longo e talvez a doula tenha de revezar a presença com sua parceira. Talvez você ache que vai parir como uma divindade e seu parto seja animal.

Eu não vomito. Odeio vomitar. E depois de anos vomitei seis vezes no trabalho de parto e tudo bem. Não vou me culpar. Eu estava parindo e tudo aconteceu como tinha de ser.

Quando não nutrimos expectativas exageradas e algumas vezes até irreais não nos frustramos. Não culpabilizamos ninguém e saímos leves do parto, sem maiores questões a serem tratadas. E reconhecemos na eventualidade cada gesto de carinho com extremo apreço e gratidão.

A força interior te dá liberdade de parir seus filhos como deve ser, sem figuras externas servindo como ponto de apoio.

A força é de vocês e está dentro de vocês, sempre!

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Parto Domiciliar – E agora?

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Muitos artigos falam sobre parto domiciliar. Geralmente quem escreve não pariu em casa, apenas montou a matéria e recortou depoimentos de quem pariu.

Pois quem vos escreve pariu em casa. E amou!

Parto domiciliar deve ser escolhido por convicção pelo casal.

Jamais opte por parir em casa para economizar. Não é um desejo legítimo, a mulher e o casal precisam estar internamente seguros de que esta é a melhor opção para receber seu filho.

Após muita pesquisa, frequentamos grupos, obtivemos percentuais e decidimos pelo parto domiciliar. Abaixo vou responder questionamentos frequentes com relação a essa escolha.

Está claro para vocês que o melhor lugar para parir é em casa.
A mulher é uma gestante de risco habitual? Pré Natal ok? E agora? O que fazer?

*1º passo: Escolha uma boa equipe.

Em grupos de apoio vocês encontrarão relatos e indicações de parteiras. Elas podem ser obstetrizes ou enfermeiras obstetras. Doula NÃO faz parto, presta apoio psicológico.

Então parir em casa com uma doula não é um plano, ok?

As parteiras estão habilitadas para acompanhar a mulher e o bebê durante o trabalho de parto ativo. Qualquer intercorrência é com elas que contaremos no primeiro momento, portanto escolham parteiras experientes.

E claro, além da experiência precisa haver afinidade. Vocês precisam estar bem na presença delas, se sentirem acolhidos. A afinidade energética da equipe é importante.

Existe a possibilidade de contar com uma neonatóloga também.

Fechou com a equipe? Vamos ao segundo passo.

*2º passo: Escolha uma doula para chamar de sua

Na verdade tanto faz você ter uma doula antes ou depois de fechar a equipe. O importante é que vocês se sintam seguros e a mulher tenha autonomia para escolher sua doula, que será seu apoio. Que a acolherá nua, que a orientará neste período.

Quem protagoniza o parto é a mulher. Quem decide sua doula também!

Desconfie de médicos que empurram a doula deles. Médico indicar doula? Ok. Médico impor sua doula? Não, Não e Não. O parto é seu. O protagonismo é seu. Quem manda é você.

A doula é a profissional que vai passar a maior parte do tempo com a gestante. É a primeira a chegar e a última a sair. Irá orientá-los em relação ao plano de parto que deve ser feito mesmo para um parto domiciliar.

Vai indicar livros, posições de alívio e conforto e orientá-la quanto ao preparo perineal. Sabemos que não existem evidências que comprovem que o uso do Epi-no evite lacerações, mas seu valor é incontestável quando falamos de consciência corporal. Vivemos numa sociedade machista onde a exploração do corpo pela mulher é muito mal vista.

A doula a acolherá em todas essas situações. Entendem a necessidade de vínculo afetivo quando falando na relação gestante x doula?

*3º passo: Informe seu GO sobre o desejo do parto domiciliar.

Médicos partem do princípio que a partir do momento que acompanham seu pré natal, assistirão seu parto.

É importante comunicar o fato do seu parto ser domiciliar e deixar tudo muito claro e transparente como agirão em caso de transferência. É o nascimento do famoso plano B.

*4º passo: Plano B

Sabemos que todo parto começa em casa. Porém seu desfecho é impossível prever, portanto tenham em mãos um Plano B.

Em caso de transferência definam qual hospital será escolhido. Terá médica backup? Terá equipe? Irá pelo plantão?

Tudo deve ser definido de forma extremamente clara. Se a sua GO diz que se der assistirá seu parto em caso de transferência então você não tem um plano B.

Definido o plano B entreguem o plano de parto nos hospitais e se informem sobre visitas as instalações, se é permitido.

*5º passo: Compra de materiais.

Parir em casa exige que vocês tenham alguns materiais específicos como :

-Mangueira longa de chuveiro
-Piscina
-Plástico para forrar a piscina
-Lençol impermeável para a cama
-Absorventes pós parto
Entre outros itens que serão informados pelas parteiras. Recomendo a compra de itens de farmácia em cirúrgicas. A quantidade é maior e o preço menor.
A mangueira pode ser encontrada em lojas de materiais de construção ou estabelecimentos que vendam apenas produtos de borracha. Os plásticos também são encontrados nos mesmos locais.

*6º passo: Cardápio

Definam o cardápio. Trabalho de parto pode ser longo e tanto a gestante quanto a equipe precisam estar alimentados e hidratados.

Frutas, sorvetes, água são recursos fundamentais. Assim que o trabalho de parto ativo iniciar ficar alinhando com essas questões. A fome é intensa no pós parto e é sempre bom ter uma comidinha fresca e gostosa pronta para a nova mulher renascida.

*7º passo: Monte sua playlist

Para mim foi a parte mais gostosa! Escolhi as músicas que eu mais amo e que mais me motivaria. Foi feita ao longo de toda a gestação e no meu caso foi essencial para me manter serena durante o trabalho de parto.

E depois é mágico ouvir todas as músicas queridas com nosso filho nos braços.

*8º passo: Escolham sua fotógrafa

Assim como a equipe, sua energia e confiança devem ser 100% com a fotógrafa. Registro de parto tem particularidades muito específicas, o ideal é contar com alguém que tenha vivência nessa área.

Certifique-se de sua disponibilidade que deve ser a partir da 37 semanas. Converse com ela sobre o que deseja, sinta o trabalho dessa profissional muito especial que irá eternizar sentimentos.

Fotógrafas especializadas em registros de parto terão lentes especiais para captar imagens em ambientes escuros. Terão disponibilidade e backup.

*9º passo: CURTAM ESSA DECISÃO!

Tudo certinho? Agora é só mentalizar mensagens positivas e relaxar. Parto domiciliar com uma boa equipe, bem assistido e com um consistente plano B é seguro e transformador.

P.S: A casa não precisa ser uma mansão. Não precisa ser enorme. Qualquer espaço seu será maior que uma acomodação de hospital. Você pode parir de forma respeitosa em sua casa, independente da metragem dela.