Bebê não faz manha. Você é que tem medo.

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Bebê que chora não é manhoso. Bebê que chora age por instinto e está se comunicando com você.

Pelo choro.

Em pleno 2015 vejo muitas pessoas insistirem na tese de que “bebê que chora é manhoso” e mesmo eu explicando que bebês não choram com o intuito de manipular adultos pois não possuem capacidade para elaborar raciocínio (vou chorar pra ela aprender) pois não entendem a relação causa e efeito, muitos decidem com si mesmos não darem ouvido ao que a ciência fala e encaram todo e qualquer choro como manha.

E não acolhem. Deixam chorar.

Me ponho a pensar…Será este comportamento é apenas a reprodução de conceitos ultrapassados?

Não, não é. E vou dizer o motivo.

Quando um bebê chora ele te chama a ação. E a ação é basicamente afetiva. Ele não quer um iate, um sapato caro ou um colar de brilhantes. Sim, no choro que é seu único meio de comunicação além de pedir “troque minha fralda” ou “estou com calor ou frio”, “estou com fome ou dor” ele sinaliza necessidade de afeto.

O choro que corta a alma muitas vezes quer apenas seu colo. Se calor, seu amor. Quer que seu corpo expresse sentimentos de acolhida. Que você o proteja, o embale, dê atenção.

Muitas pessoas por diversos motivos tem enormes barreiras afetivas em si que se refletem tanto na doação quanto na hora de receber afeto. Dai vem a imensa dificuldade de acolher um choro sem se irritar, sem se sentir manipulada.

O choro convida a gritos as pessoas darem o que elas tem dificuldade de expressar, que é a afetividade. E quando isso acontece, o mecanismo interno de proteção é acionado e o velho lema de “bebês choram por manha” vira apoio.

E não importa o quanto você explique cientificamente que não é, a muralha existe e se sustenta na manha. A manha dá passe livre para você “educar” e não acolher seu filho neste momento que ele mais precisa de você.

Além disso identificar o motivo de um choro requer vínculo. E vínculo não é parir. Vínculo pode ser estabelecido com pessoas inclusive fora da família. Quantos bebês se vinculam a babás? E o vínculo marital? Eu e meu marido conversamos pelo olhar, arrisco dizer que até por pensamento. Não precisamos de palavras para nos comunicarmos.

Com o bebê a vinculação é até mais forte, chega a ser uma questão de sobrevivência. Quando ela por algum motivo não ocorre, por motivos emocionais inclusive, fica muito difícil identificar a fonte do choro, porque faltou esse aprendizado de leitura. Choro é sentimento. Em cada decibel.

Eu consigo identificar cada choro do meu filho. Sono, fome, cansaço, tédio, cólica. Quando quer mais tempo de chamego. Se quer brincar, mudar de posição. Cada chorinho tem um motivo e nenhum até o momento é por manha.

Mas para identificar isso a ponte teve que ser construída e a matéria-prima é o afeto. Quando temos essa questão afetiva resolvida dentro de nós, as relações humanas não nos amedrontam. Sabemos amar, nos entregar. Não temos medo de nos cortar ou nos decepcionar com relações, porque somos amor e nos refazemos.

Não temos medo de ser feitos de bobos, de entregarmos nosso carinho de bandeja. Não tememos criar maus elementos manhosos que nos maltratarão no futuro e que portanto merecem nossa desconfiança no presente, porque sabemos que o afeto requer entrega, tem sede do presente.

Vejo agora que se refugiar no velho saber de que “bebês são manipuladores” é uma expressão profunda de medo. Medo de amar, medo de se entregar, medo de se machucar.

Não deixe o choro do bebê te paralisar. Bebês não fazem manha. Bebês se comunicam pelo choro.

Lembre-se disso, acolha seu bebê. Feche os olhos e abra seus braços e coração.

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