Nina Simone, Rosa Parks, Anna de Assis e seu parto.

nina-simone-smoking

A fogueira é delas. Queimem-nas. Elas sentem prazer no parto em meio a dor? Enterrem esse saber. Ensinem a elas que não precisam mais parir. Sentada no ônibus Rosa? Saia já dai que eu quero sentar. E você Tina? Quer apanhar mais? Meu marido a cobiça? Quero seus olhos Anastácia. Quer ir para a guerra? Tire a saia. Está chorando? Pudera, você é fraca.

E você Anna? Quem permitiu que você amasse Dilermando? Que saísse de casa com seus filhos? Que ferisse as mãos assando bolos e poupando seus filhos do trabalho?

Quem disse que você pode falar outros idiomas? Quem fez com que você acreditasse que ganharia o mesmo que eu? E seus filhos? Quem mandou tê-los? Não vai cuidar deles, não é?

***

Um menino atrás de mim na fila perguntou ao pai se é difícil ser adulto.

Ele não sabe ainda o que é ser mulher. É muito mais difícil e só hoje aos 31 anos eu tenho plena consciência disso.

Mulheres são fortes, tão fortes que eram deusas. E fomos pilhadas. Hoje o canibalismo impera, mulheres embrutecidas submetem outras. E se afastam de sua essência, tão forte quanto delicada.

Com uma amiga falamos sobre Nina Simone, o quão forte e altiva ela era. Voz arrebatadora. Parecia uma grande árvore invencível. Mas apanhava do companheiro.

Cheguei à conclusão que as mulheres mais fortes são alvo. São a resistência, o selvagem. As que merecem sela e cabresto. Que precisam ficar com as mãos para trás e a cabeça abaixada.

Vocês mulheres que querem parir descobriram sua força mesmo sem se dar conta disso. A aura de vocês está diferente. Seu olhar, sua postura. Alguma coisa ai dentro de vocês despertou.

É uma estrada que só leva… Nunca mais te traz.

Portanto se preparem para a luta. Vão questionar, tentar te dissuadir, dizer que fizeram uma lavagem cerebral em vocês, que vocês enlouqueceram mas a verdade é que vocês despertaram a essência feminina selvagem que todas nós temos.

Ela assusta. O selvagem precisa ficar em jaulas, precisa de sedativo pra acalmar.

Não permitam que amarrem sua força, seus desejos e sua vontade.

Somos a usina da vida. Do nosso ventre vem a luz.

Mulheres e sua força ancestral.

“Antigamente lavávamos nossas roupas nos rios conversando com outras mulheres. Quando entrávamos na lua, entrávamos todas juntas e sentávamos na terra, doando nosso sangue sagrado e tecendo sonhos com outras mulheres.

Quando tínhamos um filho no útero, ganhávamos a companhia constante de outras mulheres, compartilhando toda a arte de gerar e de dar a luz. Tecíamos, bordávamos, plantávamos, cantávamos sempre juntas. Criávamos nossos filhos juntas. Entendíamos de ervas e compartilhávamos os segredos das medicinas da terra.

Quando perdemos esses hábitos nos isolamos e perdemos essa dose maravilhosa de ocitocina (hormônio do amor, fabricado também durante o parto) que fabricamos quando estamos entre mulheres. Começamos a achar normal toda essa individualidade. Começaram a nos rotular de fúteis, que gostamos de comprar, de cuidar da aparência, que falamos demais, que só falamos de homens. Esquecemos a arte de parir. Começamos a achar normal cortarem nossos úteros para dar a luz.

Achamos normal também não devolver nosso sangue lunar pra terra a cada 28 dias, e usar absorventes descartáveis pra poluir nossa Mãe Terra. E como nos desconectamos da lua e da terra, e do nosso ciclo lunar começamos a achar normal tomar pilulas bombas de hormônio, porque não conhecíamos mais nosso corpo pra saber quando estávamos férteis. E ai trocamos as sagradas medicinas da Mãe Terra, por medicinas controladoras do nosso corpo.

Mas algo estava gritando dentro de todas nós. Algo estava faltando. E por isso no mundo todo essas sementinhas adormecidas voltaram a brotar. Mulheres e mais mulheres voltaram a olhar pro céu, por a mão na terra, sentir e honrar seu sangue, querer parir em paz. Mulheres voltaram a querer estar com mulheres. Em volta do fogo. E em volta de seus próprios corações. E círculos de mulheres voltaram a acontecer no mundo todo…” – Anna Sazanoff