Da doula sentimentos precisos.

Parto não é um evento neutro. Não é como olhar uma tela em branco e sair incólume. Um rito de passagem acontece ali, em frente a todos.

A menina vira mulher e mãe. O homem vira pai. E a equipe, cada um que esteve ali sai com uma mudança interna. Cada pedaço de parto, de luta, de lágrimas de sorrisos passa a ser nosso também.

Comigo foi assim, acompanhei um trabalho de parto onde cada contração era minha também. Isso é sintonia, conexão, entrega. Vínculo precisa existir como ponte para transferência de força e eu digo, a mão é dupla.

Damos e recebemos.

Quando nasce um bebê nasce um pai, uma mãe, uma doula e uma rede de apoio. A cada parto um pouco de nós renasce, aprende, se fortalece.

Muito se sabe sobre os sentimentos e expectativas. Temos relatos de partos fortes, belos, crus, romantizados. Cada qual feito com a visão e momento da mulher. Ela protagoniza esse momento, mas nós doulas ali com ela, unidas em pensamento, em abraços em massagens, respirando juntas, em silêncio também temos nossa história que vai se cruzar com cada mulher.

Cada pródromo nos traz a expectativa do que virá. Cada um deles me levou a lugares distantes e iluminados onde eu mentalizava coisas positivas, força e garra para o momento de passagem.

A comunicação era fluída, independente do horário. Vanessa, sinto contrações. Sem ritmo. Amanhã: Elas vieram a noite. E daqui do outro lado a gente sabe que vem, que o corpo funciona, que a natureza é perfeita.

Rede de apoio acionada, logística para a alimentação da família. No grande dia e eu sabia, 08:00 da manhã as panelas acordavam a casa que estava em pródromos também. Tudo orquestrado, 11:00 eu almoçava.

Refeições prontas para as próximas 48hrs, frutas separadas, marido avisado, telefones a mão. Mala de doula pronta com óleos, essências, música, esperança. Ali no canto da sala, pronta para ser tirada para dançar mais tarde.

E a hora de partir chega, tantas horas depois. Caminho que leva, caminho de mistério. Qual a lição a ser aprendida? Qual o presente a ser recebido?

Um trabalho de parto é uma desconstrução de tudo que foi construído a gestação toda. É cada mulher descobrindo uma história através de contrações nunca contada antes. E o aprendizado é individual, em cada momento você vai descobrir o que deve aprender. Paciência, tolerância, garra, entrega, humildade, gratidão. Trabalho de parto ensina muito e a todos nós.

Para mim foi leveza e força. Foi ver o sol se despedir, saber que dali a horas aquele menina seria mulher de alma. Foi saborear e sentir o gostinho do café, o óleo para massagem se aquecer tantas e tantas vezes na minha mão. Foi sentir e saber o que a gestante precisava sem que ela precisasse falar. A hora de falar e a hora de calar. E esperar, tempo, tempo, tempo. Faço um acordo contigo.

Naquele momento eu tinha fragmentos de minha vida comigo. Não me via Vanessa, mãe do Álvaro, tutora dos meus quatro gatos. Não assumia um papel. Me sentia mulher, sentia toda a ancestralidade que pariu antes de mim ali naquele momento entregue e em conexão continua.

Nós mulheres que partilhávamos segredos, receitas, ervas. Que nos banhávamos nos rios, dançávamos a luz da da lua, criávamos juntas nossos filhos. Em tendas nossos ciclos menstruais se alinhavam, nossas preces se juntavam. Nossas mãos se entrelaçavam no parto. Cheiro ocre de sangue. Choro. Bebês. Leite, dores e curas. Inventem um nome para tudo isso, pois na doulagem essa mistura de sentimentos e saberes ancestrais era o que me compunha.

Tive a honra de fotografar o parto e com autorização da gestante compartilho com vocês o renascimento de uma guerreira, de uma família.

Espiritualmente doular tem um impacto muito grande. De mim entrego tudo, é a fusão. É o sentimento de redescoberta, de para isso ter vindo ao mundo.

A vida meu agradecimento. As mulheres que sentiram o chamado em 2016 para que eu as doule, minha gratidão por contar comigo num evento deste porte e importância. Sem a garra, sem a vontade de vocês de parir talvez minha missão permanecesse adormecida.

Esse é meu último post de 2015. Ano espetacular onde eu me descobri muito mais forte que a maior das rochas e agradeço todos em todos os planos por estarem sempre a me guiar.

 

 

 

 

 

Vamos falar sobre ansiedade?

healthy pregnant woman doing yoga in nature outdoors

As mãos trêmulas, taquicardia, aperto no peito, noites mal dormidas. Pensamento longe do presente, focado no “e se” e na falsa sensação de controle são sinais claros de ansiedade. E durante a gestação esse sentimento fica bastante intenso.

São muitas dúvidas. Vou dar conta? Vou conseguir amamentar? Qual o sexo? Vou ter condições para custear meu parto? E se a saúde não for perfeita? E se eu não conseguir retornar ao trabalho? E se eu for vítima de violência obstétrica? E se eu não suportar a dor?

Viram? Esses são apenas alguns dos “e se”? Esses questionamentos da forma que se apresentam levam a um vórtice de ansiedade paralisante.

Mas afinal o que é ansiedade?

Ansiedade em sua essência é preservação da vida, é parte de nossa natureza. E não é possível deixarmos de ser ansiosos pois esse mecanismo faz parte do nosso instinto de sobrevivência, o que podemos fazer é não permitir que esse sentimento tenha uma carga negativa em nossa vida.

Ansiedade é não estar centrado no aqui-e-agora.  A meta é aprender a desenvolver uma centralidade para o presente curando a ansiedade negativa e os sintomas psicossomáticos causados por ela.

Precisamos entender que tudo o que pensamos passa para nosso corpo. Tudo o que você dá importância é sentido por ele. O cérebro não sabe o que é fantasia, realidade, passado, presente ou futuro.

Se você mentaliza algo negativo ele acredita que é real e vai responder de maneira adequada a uma ameaça.

Não acredita? Faça um teste simples.

Se imagine dentro de um prédio em chamas. Fumaça por todo lado, calor, ambiente escuro abafado. Você tenta sair, as paredes estão quentes, bolhas saem pelo seu corpo. Você não encontra saída.

Essa visualização já criou uma emoção em você e o envolvimento já se deu de tal maneira que você não consegue pensar em como seu corpo reagiu a ela.

Provavelmente seu corpo já ficou tenso, boca seca, rosto contraído, coração num ritmo diferente. O mal-estar se instala.

Por outro lado pense numa linda praia, águas mornas e transparentes. Você com seu amor caminhando na beira do mar, curtindo um pôr-do-sol lindíssimo. Seu corpo sente-se bem, os ombros de soltam e com certeza um sorriso aparece em seu rosto.

Viu como nosso corpo físico reflete nossas emoções?

Devemos nos lembrar sempre que situações perfeitas e idealizadas existem apenas em nossa mente. Não podemos controlar todas as situações, podemos sim buscar condições favoráveis, mas o alinhamento de idealizações versus realidade nos trará apenas mais ansiedade e frustração.

Nos cobramos absurdamente, cobranças que obviamente não poderemos atender, portanto uma das chaves para um viver mais equilibrado é saber diferenciar a ansiedade negativa da ansiedade positiva.

Essa diferenciação é o ponto de partida para uma gestação onde nossos sentimentos estejam em equilíbrio. Aprender a controlar a ansiedade é aprender a controlar nossos sentimentos.

Mas afinal, como surge a ansiedade positiva?

Ela surge quando planejamos coisas. Lembrando que ansiedade é estar fora do aqui e agora, logo quando você planeja algo está sob um processo de ansiedade positiva.

Como a ansiedade positiva pode se manifestar quando planejamos nosso parto?

De forma simples. Você está grávida e deseja parir da forma mais natural possível. O que vai fazer? Provavelmente vai seguir um roteiro, como: Procurar uma médica humanizada, optar por parto domiciliar ou hospitalar, encontrar uma doula para chamar de sua, se informar sobre seus direitos como gestante, frequentar grupos de apoio, preparar a casa para a chegada do bebê. Tudo isso faz parte de um acontecimento futuro, mas que é gostoso, necessário e que guiado de maneira sadia com certeza a deixará feliz.

Agora suponhamos que você comece a divagar:

Como será meu parto? Vou suportar a dor? Se for em casa, meu vizinho vai se incomodar? Eu vou ficar constrangida de vocalizar? E se alguém bater na minha porta? E se no hospital a equipe não chegar a tempo? E se tiver trânsito? E se eu não conseguir chegar a tempo? E se eu vomitar no carro? E se no caminho furar o pneu? E se minha mãe não vier para me ajudar a cuidar do meu cachorrinho? E se minha doula não atender ao telefone quando eu precisar? E seu meu filho não conseguir mamar? E seu eu não gostar do quarto? E se… E se…?

Como vocês se sentem? Estômago revirado? Pontadas? Tontura? E se esse ritmo frenético de divagações negativas continuarem? Você vai desistir?

As pessoas enfrentam imprevistos em suas vidas, mas será que focar toda sua energia de maneira negativa neles é uma forma de prevenção?

Sim, precisamos ser responsáveis, ter plano A, B e C porém o parto exige entrega. É um momento forte, mas precisamos encarar todo o processo desde a gestação de maneira suave também. Dar vazão a ideias catastróficas pode servir como um banho de água fria em nosso planejamento.

Aprender a controlar a ansiedade é aprender a controlar nossos pensamentos. E para fazermos isso precisamos estar conectados com nosso corpo, com nossa essência para percebemos como nos sentimentos em relação a determinados pensamentos, temos que estar sempre atentos a nossa postura mental.

Quando nosso corpo somatiza um sentimento ele faz com que voltemos nossa atenção para aquele ponto. É como se sua máquina de lavar apresentasse um ruído. A atenção volta tanto para o barulho que acabamos por chamar um técnico para realizar uma visita.

Com nosso corpo ocorre o mesmo. A natureza é sábia e visa sempre nosso bem estar. Quando nosso corpo sinaliza com sintomas de desconforto ou dor ele pede atenção. Chegou a hora de checarmos nossos pensamentos, a que estamos dando importância, o que estamos trazendo para dentro de nós por meio de cobranças, críticas.

Importância é trazer para dentro de si algo de lá de fora.

O processo de autoconhecimento é vital para o controle da ansiedade dentro de nossa história de vida. Criando centralidade, controlando pensamentos negativos, refletindo sobre nossas posturas viciadas teremos um caminho e uma realidade livre de medos, somatizações e sentimentos negativos que atuam apenas como forma de bloqueio para nosso caminho rumo a evolução.

O parir começa na mente. Corpo são, mente sã.

Parto normal está bom!

Com seu neto, nascido de maneira respeitosa 31 anos depois de seu primeiro parto.
Com seu neto, nascido de maneira respeitosa 31 anos depois de seu primeiro parto.

“Não quero um parto humanizado, não precisa de tanto. Um parto normal está bom.”

Ouvi essa frase muitas vezes. Gostaria de pertencer aqueles corpos, mente e coração para sentir esse desejo. Para decifrar o que as pessoas lêem como parto humanizado.

Imagino que as pessoas entendem o parto humanizado como aquele parto que a mulher não pede analgesia. Que ela tem o bebê em casa, apenas com doula.

Parto humanizado é aquele que a mulher é respeitada e protagoniza esse momento. Ponto. Não existe escala. Não existe pódio.

Mas esses detalhes deixarei para outro post, hoje falarei sobre parto normal, só que um parto normal há 32 anos, no hospital.

Nadja Prado abriu seu coração, expos suas feridas nesta entrevista onde relata como seus filhos vieram a vida.

Ela teve dois partos normais violentos, com plantonistas. O que ela relatou ainda acontece quando mulheres desejam parir, com um agravante: Finalizam com cesáreas desnecessárias.

Leiam e reflitam. Parto normal no Brasil é normal mesmo? É respeito? É normal como a palavra sugere?

Entrevista emocionante. Relatos de uma vida, de décadas atrás, que ainda vive intensamente nos hospitais do Brasil.

Semearmos: Qual sua referência de parto em sua vida? Como surgiu seu desejo de engravidar?

Nadja: Esse surgiu depois que casei e foi compartilhado com meu marido. Um mês depois de casada engravidei.

Semearmos: Qual era a troca de experiências sobre o parto?

Nadja: Nenhuma. As mulheres não falavam sobre parto. Quando engravidei não havia essa conversa. As conversas que haviam era sobre o sexo de bebê, médico do pré natal, roupinha de bebê, berço, quarto decorado. Ninguém discutia via de parto. Era um ritual, quando as mulheres sentiam dores iam para o hospital. Falava-se muito na dor, mas ninguém explicava como poderia ser amenizada. Não havia informação, íamos para o hospital e ponto.

Semearmos: Como foi a sua experiência de parto normal hospitalar? Teve preparo, auxílio da família?

Nadja: Não tive auxílio do médico, ele não passava nenhuma informação sobre sinais do trabalho de parto. Eu simplesmente comecei a sentir dores e fui desesperada para o hospital achando que iria dar a luz em poucas horas.

Semearmos: Como foi sua recepção por parte da equipe hospitalar?

Nadja: Foi horrível. Me colocaram num quarto sozinha e ali eu comecei a ter as contrações. A dor foi aumentando, eu gritava e ninguém me acudia. Eu senti muita fome. Internei cedo e minha filha nasceu a tarde. Eu tinha sede. Delirava pensando em comida e bebida.

Me informaram que eu não podia beber e nem comer. A cada hora um médico vinha fazer o exame de toque.

Semearmos: Eles pediam licença? Informação a você sobre o procedimento?

Nadja: Eles não diziam nada. Eu estava morrendo de dor, o médico chegava na sala com enfermeiras, fazia o exame de toque e dizia:

-Não está na hora. E saia. Eu ficava sozinha, até o momento que me levaram para uma sala de cirurgia e as coisas pioraram ainda mais.

Semearmos: Pioraram por quê?

Nadja: Houve segundo eles uma demora na hora do nascimento. Pediram para eu fazer força, eu fazia, mas não tinha dimensão desta força. Estava anestesiada. Diziam durante a aplicação da anestesia que se eu me mexesse ficaria paralítica. Uma coisa horrível, tudo traumático. Num determinado momento uma enfermeira colocou todo o peso dela sobre a minha barriga. E ela dizia que fazia isso para me ajudar. Foi horrível.

Semearmos: O que você sentiu? Acha que isso era certo? Achava que poderia ter recebido um tratamento diferente? Sofreu episiotomia?

Nadja: No primeiro parto não tive episiotomia, mas no segundo sim. Um corte imenso, minha vizinha que viu a extensão. Mal conseguia sentar de tanta dor. Minha filha nasceu com o braço quebrado, sai com ela com o braço enfaixado.

Não tinha o que questionar. Nós fomos ensinadas a obedecer, os médicos sabem de tudo. Se o médico colocasse o pé na barriga não questionávamos. Estávamos imersas numa ignorância total.

Semearmos: E a questão da amamentação? Como fluiu a amamentação no hospital? Você teve contato pele a pele?

Nadja: No caso da minha filha foi uma demora muito grande e me deixou preocupada. Depois de horas fui amamenta-la. Não sei como ela foi alimentada, a vi no dia seguinte. Mulheres se informem. Hoje vocês tem informação. Minha filha pariu naturalmente, com respeito. Eu estava presente. Vi meu neto nascer rodeado de amor. Ela reescreveu a minha história.

Quantas Nadja recebem seus filhos por um parto normal violento, muitas vezes sem se darem conta?

Parto humanizado não é apenas um parto vaginal, é regaste da essência feminina, superação, amor. É protagonismo, respeito a mulher.