Relato de parto II – Vanessa Meyrelles

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Relato de parto fresquinho, com a visão que tenho hoje do meu parto.

Que muitas mulheres se inspirem, se entreguem a ser mar revolto que é parir.

Oito meses depois decidi escrever um relato de parto com a visão que tenho hoje do que foi o meu parto. Com menos romantizações e mais objetividade.

Meu trabalho de parto começou numa quinta embora eu estivesse tendo pródromos há quase 10 dias. Estava totalmente desencanada com pós datismo, tocava a minha vida normalmente, embora fisicamente não conseguisse sair de casa há três dias.

Na madrugada que antecedeu o parto senti contrações fortíssimas, minha gata estava sempre ao meu lado. Senti um prenuncio. Não havia sentido até então nada parecido.

A dor? Uma dor de barriga bem intensa, aquela que faz a gente se curvar e perder o ar. Foi uma madrugada que eu não consegui dormir bem.

Pela manhã não sentia mais nada. Marido foi trabalhar em outra cidade sem o carro, eu tinha cabelo e unha marcados no dia e tinha certeza que iria fazer.
Minha doula veio em casa pela manhã, conversamos, inflou a piscina e foi embora. Good vibes total, eu estava ali, com o controle de tudo. Iria ajeitar a casa, almoçar e partir pro salão.

Lembro que as contrações começaram a vir mais vezes. Desritmadas, mas estavam mais intensas. A cada uma delas eu me curvava. Não contei os intervalos, apenas sentei e sentia cada uma delas. Como alguém que bebe um vinho sem pressa.

Nesse momento eu não conseguia pensar em futuro ou arquitetar coisas. Não ia ao cabeleireiro era o que eu sabia. As contrações devolveram a minha centralidade, sequer avisei as doulas sobre o que sentia.

Minha mãe veio em casa, assistiu um pedaço da novela, comemos um bolinho e ficou assustada com a intensidade das dores. Disse para eu avisar a doula e saiu para resolver um problema sério de vazamento na casa dela. Fiquei sozinha que nem bicho no meu quarto. Do jeito que eu queria.

Já não conseguia raciocinar ou ter noção do tempo. Baixei um aplicativo e por ele via que elas estavam pegando ritmo. Ficaram mais e mais intensas, as horas passaram sem que eu me desse conta. Fui engolida pelas horas. Meu marido chegou e eu estava com as contrações bem ritmadas, vomitei. Nessa hora ele viu que realmente nosso filho viria e avisou a doula. Ele chegou 19:00 e as parteiras vieram logo em seguida as 20:40.

A fotógrafa mudou os planos do cinema e veio para casa, as doulas chegaram e eu já estava em outra dimensão, conseguia ver as pessoas, mas tudo era muito sutil. Comecei a ouvir minhas músicas, a noite caia e eu tinha ciência que o trabalho de parto tinha começado.

Lembro que minha mãe batia alguns talheres, esse barulho chegava de maneira insuportável até a mim, minha audição parecia ter ficado extremamente apurada. Eu ouvia tudo, sussurros, passos. A visão não existia mais, enxergava tudo em borrões.

Contrações muito doloridas, fui para o quarto com meu marido. Vomitei bastante, ficava com um baldinho e um tudo de água sanitária…rsrs…Não conseguia comer NADA. Não conseguia beber. Só queria a escuridão.

E foi na escuridão que fiquei com o Mário. Depois de um tempo as doulas entraram com suas mãos mágicas e preciosas. Suas vibes totalmente do bem iluminavam aquele mar revolto que eu atravessava. Falavam baixinho, anjos.
Por volta das 22:00 as parteiras chegaram e eu não tinha entrado na piscina. Sentia muita dor, e lembrem-se, dor não é sofrimento. A cada contração eu agradecia por estar em casa, no meu quarto, usando meu banheiro, com meus gatos, ouvindo minhas músicas. Aguentaria tudo para não ir para um hospital, ali estava na minha toca, feliz, sabendo que a vinda do meu filho se aproximava.

Pedi toque para as parteiras. Perguntaram se eu tinha certeza e eu disse que sim. Sentia meu corpo abrir, sabia que estava muito perto e queria água, piscina para aliviar.

Oito centímetros e colo fino! Nem acreditei! Não senti dor no toque, tudo foi feito com muito respeito, sai exultante, comemorei. Até essa parte estava consciente.
A partir dai as contrações se intensificaram. Bem fortes, mas a água tirava a dor com a mão. Ouvia minhas músicas, estava na sala, tudo a luz de velas. Silêncio. Não sentia ninguém ao meu redor.

Era outro mundo. Um mundo que a dor me mostrou. Um mundo aqui e agora, sem pensamentos invasores, sem racionalização. Mergulhei num sentir sem fim.
A dor aumentou muito, muito, muito. Vi a Ana chegando de canto de olho e pensei: Estou perto, falta pouco. Em nenhum momento pensei em desistir. Em nenhum momento pedi por uma cirurgia, por anestesia. Não vocalizei, no final urrei 04 vezes, do fundo da alma.

Na minha mente não existia a opção analgesia, hospital, transferência ou sair de casa. Eu ia conseguir.

Exigi muito fisicamente das doulas. Meu marido ficou me massageando com toda a força, eu precisava de força, eram três pessoas com suas mãos mágicas me guiando.

Não li nenhum livro, eu confiei no meu corpo e vi que parir é como respirar. Não se preocupem em tentar saber como serão as contrações de verdade ou o trabalho de parto, na hora vocês vão saber. Parir está gravado em nossa alma, nossa ancestralidade é feita de parir.

A transição foi bem difícil, sem o apoio do marido, equipe e doulas eu teria pirado, porque a gente pira mesmo. Lavanda trouxe minha paz, cheirinho de café também.

Na piscina senti um puxo. Respirei e não fiz força com ele. Puxo é uma força que age sozinha e é irresistível. E posso confessar? A parte mais prazerosa pra mim no parto foi me render aos puxos!

Eu sai da piscina e senti outro puxo e me rendi. Dane-se laceração, meu filho dizia que precisava vir. Ouvi a voz dele e o ajudei.

Fiz três forças com os puxos e ele nasceu. Primeiro cabeça, depois ombros e corpo todo. Escorregou. Sentir seu corpinho saindo foi transcendental. Não pari apenas um bebê, pari sentimentos, mágoas, angústias, vitória.

Foram 05 minutos de expulsivo que finalizei na banqueta.

Fiquei loucaça no expulsivo, queria que as parteiras tirassem ele logo e acabou, mas 04 minutos depois ele estava em meu colo.

Morno, escorregadio. Lembro que falei: -Ai meu bebezinho! Levantei da banqueta e fui pro meu quarto. Queria minha cama, minha toca e meu filho. Não sei de onde tirei forças para isso.

Bebê nasceu, fim das dores. Ocitocina a milhão, felicidade absurda, sentimento indescritível de vitória. A gente esquece de todas as dores e se sente poderosa.
Eu pari, 4.230kg, 54cm, períneo íntegro. Eu pari meus medos, eu pari em casa, eu consegui. Foi uma vitória pessoal, vitória contra um sistema cruel e a morte da menina para o renascimento da mulher.

Minha vida mudou completamente, mas bem, isso é relato pra outro capítulo.
Meu conselho mulheres: Lutem pelo seu parto, se conectem com si no parto. Desencanem da louça, do cachorro. Abstraiam, mergulhem em si mesmas.

É incrível, indescritível e transformador.

Meu parto, a dor e eu – Pâmela e Davi

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Essa semana será muito especial no Semearmos!

Meu parto, a dor e eu. Nosso tema da semana.Um post por dia. Um relato. Uma mulher partilhando a sua vivência pessoal sobre a dor do parto.

Muito se fala sobre ela, muito temor. Com tanta medicalização no parto, quantas mulheres vocês conhecem para trocarem vivências?

Aqui elas tem voz!

Pâmela mãe do Davi conta tudo o que sentiu para nós.

O meu parto foi planejado bem antes de eu engravidar, assim que o filme O Renascimento do Parto apareceu iniciei meu processo de empoderamento. Eu não sabia quando seria, nem como seria, o que eu sabia era que iria parir.

Quando cheguei nas 41 semanas de gravidez, sem nenhuma cólica, nenhum sinal, me bateu aquele desespero, aquela tristeza, fiquei me perguntando: Meu Deus, será possível que vou passar por essa vida sem nem ao menos conseguir parir, nenhuma dorzinha? Com 41 semanas e 4 dias, fui na consulta com a parteira, ela demorou um pouco para atender, acredito que uns 40 minutos, cheguei antes do horário, mal tinha dormido ansiosa, ela estava com outra paciente, nesse tempo tive algumas cólicas, mas a negação começou ai.

Olívia me examinou e verificou que eu estava com 2 para 3 centímetros de dilatação e tampão saindo. Meu Deus, como assim, tudo isso sem nenhuma dor?Fez o procedimento de descolamento de membrana, fomos embora, entrei no carro sentindo dores. Esqueci a bolsa na Olívia, voltei para buscar, marido foi pegar, eu não quis descer do carro, as cólicas estavam mais interessantes, eu queria senti-las.

Daí pra frente elas vieram mais bonitas, lindas, será que era hora? Como eu queria que fosse.

A Gi, minha doula, me aconselhou as 15 horas a tomar um banho longo, lá fui eu e minha bola. Depois de mais de uma hora elas engrenaram e vinham a cada 3 minutos. Eram dores no quadril, como se eles estivessem sendo pressionados. A água descia gostoso nas costas, saí do banho, as 17 a Gi chegou. Comemos, conversamos, as 20 horas passei mal, fui novamente pro chuveiro acredito que às 21:30 a dor realmente ficou séria, eu no chuveiro me sentia cansada, mas falava, ah, se for assim, aguento até 3 dias.

Às 23 elas ficaram intensas, aí eu sentia realmente a pressão no quadril, e aí comecei a gritar pra expulsar tudo o que elas me traziam, gritava pra que apertassem meu quadril e os anjos chamados doulas, a Gi e a Ca apertavam cada uma de um lado, e era bom de mais quando faziam isso meu Deus, como era bom. Tem fotos que a Alana também apertou, mas coitadas eu nem via só gritava apertaaaaaaaaaa.

É incrível como me lembro pouco dessa dor, me lembro da alegria que era estar conseguindo chegar nesse momento, pensava que estava ajudando meu filho e meu Deus como era bom saber que ele estava chegando, quando realmente aceitei que eu estava parindo, fui pra banheira, e ali eu senti realmente o alívio da dor, a cada contração aquela água quentinha nas minhas costas eram demais de delicia. Ainda lembro da cena, eu, na minha banheira, na minha casa, tendo as tão sonhadas contrações. Elas foram longe, duraram muito, tive edema, ele estava segurando meu bebê, e isso me assustou, mas fui racional, tentei estar no controle da situação se as meninas falassem pra eu virar de ponta cabeça, eu virava, e virei fiquei de 4 apoios na banheira, andei pela casa, subi e desci escada, a pior posição foi na banqueta, nossa que horrível ficar sentada nela, disso eu lembro, de que não quis ficar nela e fui respeitada. Gi fez rebozo.

Quando era umas 8:30 a Olívia me sugeriu que colocássemos gelo pra amenizar o edema, ou teríamos que ir para o hospital tomar anestesia. Eu tinha consciência disso, já havia estudado sobre. Depois de uns 10 ou 15 minutos falei que não ia esperar mais, queria logo colocar o gelo. Subi para o quarto, no meio de uma contração, como onça, motivada por eu quero logo ver meu filho. No momento do procedimento eu estava abraçada a bola e era muito boa essa posição, de quatro.

Ai antes mesmo de colocar o gelo, Olívia conseguiu retirar uma parte do que estava atrapalhando a passagem e o Davi desceu.  A ele desceu e vencemos juntos o edema. Aí eu posso dizer que a dor começou, não a das contrações, essas desapareceram. Aquele mardito daquele circulo de fogo veio que veio queimando tudo, eu queria sumir, eu queria correr, eu queria fazer toda força possível pra que isso acabasse logo, e não acabava. Nessa hora a Gi e o marido seguravam na minha mão, como isso foi importante, eu estava em pânico com medo de machucar, de não conseguir. Do procedimento até o nascimento do Davi foram 18 minutos, que pra mim foram eternos, foi o único momento em que tive pânico da dor, a queimação quando ele passava me fez fazer força, muita força, a cabeça passou, e com ela a dor também. A próxima contração, outra vez a queimação, Olívia nos ajudou, meu bebê nasceu. Tudo passou, estávamos nós, sem dor, sem sofrimento, sem separações. Nosso mundo completo.”